Criação, Satanificação

            Regeneração, Deificação

Parte 1: Criação para Regeneração

                                                           Por Ron Kangas

Tradução não oficial e não revisada pelo autor do artigo “Creation, Satanification, Regeneration, Deification – Part 1: Creation for Regeneration” publicada em Affirmation  & Critique em abril de 2001, Living Stream Ministry - Anaheim – Ca – EUA, por João Lídio de Carvalho Neto para a Igreja do Senhor Jesus Cristo sem fim comercial.  

 

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 fim de entendermos o pensamento central da revelação divina na Bíblia, precisamos ver a conexão entre Gênesis 1:26 e Apocalipse 21:10,11.  Gênesis 1:26 diz: “Deus disse: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”.  Apocalipse 21:10,11 diz: “(Ele) me transportou, em espírito, até a uma grande e elevada montanha e me mostrou a santa cidade, Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, a qual tem a glória de Deus.  O seu fulgor era semelhante a uma pedra preciosíssima, como pedra de jaspe cristalina”.  O homem em Gênesis 1 é um homem corporativo, criado carregando a imagem de Deus para Sua expressão; a Nova Jerusalém, em Apocalipse 21, é um homem-Deus, corporativo, regenerado, transformado à imagem do Senhor (2Coríntios 3:18) para a expressão de Deus, em glória.  O fato da aparência da cidade santa e do Deus Santo serem a mesma – jaspe (Apocalipse 4:3; 21:11) – indica que a cidade é a expressão corporativa de Deus.  Em Gênesis, há o potencial para a expressão corporativa de Deus; em Apocalipse, há a realidade desta expressão.

 

É o propósito eterno de Deus ter uma expressão corporativa de Si mesmo em, com, e através do Seu povo escolhido e redimido, que foi criado por Ele para se tornarem filhos nascidos dEle.  Para o cumprimento do Seu propósito, Deus tem uma economia, um plano e um programa de ação administrativo, para dispensar a Si mesmo em Sua Trindade Divina para dentro do Seu povo   redimido   como    sua vida, seu suprimento de vida, e seu tudo.  O alvo da economia de Deus é fazer Seu povo escolhido e redimido o mesmo que Ele é, em vida e em natureza (mas não em Deidade), e fazer-Se um com eles, e eles, um com Ele, de maneira que Ele possa ser aumentado e expandido em Sua expressão com Seus atributos divinos expressados em virtudes humanas enriquecidas e so erguidas. 

 

Como Deus pode fazer Seus redimidos serem o mesmo que Ele, em vida e em natureza, e como Ele pode fazer-Se um com eles e eles um com Ele para Sua expressão corporativa?  Isto tem lugar por meio do dispensar divino da Divina Trindade para dentro do homem tripartido.  Baseado na criação da humanidade à imagem de Deus e conforme a Sua semelhança, este dispensar é levado a cabo através da salvação orgânica de Deus, um processo que está alicerçado na redenção de Cristo (o aspecto judicial da salvação completa de Deus) e que inclui: regeneração, santificação, renovação, transformação, conformação e glorificação.  Visto que este processo é o meio pelo qual os crentes em Cristo tornam-se um com Deus e até o mesmo que Deus, em vida e natureza, nós usamos a palavra deificação para descrevê-lo.  Uma vez que expressamos o que somos, se desejamos expressar Deus, devemos, num sentido muito real, tornar-nos Deus, não na Deidade ou como um objeto de adoração, mas em vida, em natureza, em constituição, em aparência, e em expressão.  Isto envolve criação, regeneração e deificação.  Criação é para regeneração, regeneração é para deificação e deificação é para a expressão corporativa do Deus Triúno.

 

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ste grande empreendimento divino é objetado e atacado por Satanás, o inimigo de Deus, que, em sua sutileza, tem uma conspiração contrária à economia de Deus.  Em resumo, o objetivo de Satanás é fazer o homem criado ser o mesmo que ele em sua vida e natureza más.  Isto nós podemos descrever como satanificação – uma palavra que denota o processo de satanás está fazendo o homem criado por Deus para Sua expressão uma constituição de Satanás para sua expressão diabólica.  Como demonstraremos posteriormente, toda a humanidade tem sido satanificada e tem se tornado uma raça de víboras, filhos do diabo (Mateus 23:33; 1João 3:10).  Portanto, juntamente com o desvelar da criação, regeneração e deificação, as Escrituras expõem a realidade terrível da satanificação.  Isto se nos faz necessário do ponto de vista da economia eterna de Deus, prestarmos muita atenção a quatro assuntos cruciais, cada um corporificado numa simples palavra: criação, satanificação, regeneração e deificação.  Por esta razão, o título geral para esta série dividida em três partes, que cobrirá criação para regeneração (Parte 1), satanificação e sua nulificação (Parte 2), e regeneração para deificação (Parte 3).  Este artigo cobrirá a Parte 1: criação para regeneração.

O Deus Triúno criou o gênero humano à Sua imagem e conforme a Sua semelhança para Sua expressão corporativa.  A única maneira que um ser humano criado por Deus pode expressar Deus é receber a vida de Deus (a vida divina, incriada, eterna) por intermédio da regeneração e tornar-se Deus em vida e natureza através da deificação.  Esta é a intenção de Deus.  Entretanto, Satanás, agindo rapidamente, como de costume, injetou-se para dentro do homem como pecado.  Isto é satanificação.  Antes do propósito de Deus na criação poder ser realizado e antes da regeneração poder ter lugar, o fato da satanificação deve ser tratado e solucionado; deve haver uma nulificação da satanificação.  Isto teve lugar através da morte de Cristo sobre a cruz como oferta pelo pecado, como Aquele que, em cumprimento do tipo da  serpente de bronze  (Romanos 8:3; João 3:14), veio na semelhança da carne do pecado e foi feito pecado por nós, de maneira que o pecado na carne pudesse ser condenado e o diabo, a fonte do pecado, pudesse ser destruído (Hebreus 2:14).  Com a redenção de Cristo como base, Deus é agora capaz de dispensar-Se para dentro do Seu povo escolhido e redimido, como vida, para sua regeneração e conseqüente e gradual deificação.  Desta maneira, a estratégia de Satanás é derrotada, e o propósito de Deus é cumprido.  Isto, em resumo, é a tese que será desenvolvida plenamente no decorrer desta série em três partes.

 

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ada uma das três partes tem sua própria tese, uma subtese por assim dizer. A tese, o pensamento básico e controlador da Parte 1, é que a criação do gênero humano à imagem de Deus foi para a regeneração pela vida de Deus conforme a economia de Deus para o cumprimento do propósito de Deus.  O ponto central para o desenvolvimento desta idéia é que a regeneração é necessária não principalmente por que o homem caiu, mas por que o homem, por criação, não tem a vida de Deus.  Em outras palavras, ainda que o gênero humano nunca tivesse pecado e nunca tivesse sido satanificado, nós ainda teríamos necessidade de ser regenerados.  Para nós, ser criado significa que fomos formados por Deus para ter uma vida humana; para nós, ser regenerado significa que nascemos de Deus para ter a vida divina.  Regeneração, portanto, não é fundamentalmente para tratar com o pecado, mas para cumprir o propósito de Deus à parte do problema do pecado.  Ainda que Adão não tivesse pecado, ele ainda teria necessidade de regeneração.  O homem precisa de regeneração simplesmente por que ele é uma criatura, um humano, não meramente por que é um pecador.  A regeneração cumpre o propósito da criação; por conseguinte, criação é para regeneração.  Isto requer um estudo detalhado, ao qual agora nós nos voltamos.

 

                                                                  O Bom Prazer de Deus            

 

Nós começamos, como devemos, no início, com o bom prazer de Deus.  O livro de Efésios, que foi escrito da perspectiva do bom prazer de Deus, revela que Deus nos predestinou “para filiação por meio de Jesus Cristo para Si mesmo, de acordo com o bom prazer da Sua vontade” (Efésios 1:5), e o verso 9 diz que Deus nos fez conhecido “o mistério da Sua vontade conforme o Seu bom prazer, o qual Ele propôs em Si mesmo”.  A expressão bom prazer indica que Deus necessita de prazer.  De fato, como Aquele que vive, Deus necessita do prazer máximo.  O bom prazer de Deus, o desejo do Seu coração, é aquilo que O agrada.  Em termos humanos, o bom prazer de Deus é aquilo que O faz feliz ao cumprir o profundo desejo do Seu coração.  Conforme a Bíblia como um todo, e Efésios em particular, o que agrada a Deus e O faz feliz é ter muitos filhos que são a reprodução e a multiplicação do Seu Filho Primogênito (Romanos 8:29) para Sua expressão corporativa, primeiramente como o Corpo de Cristo e finalmente como a Nova Jerusalém.

 

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eus Se deleita em Seu Filho: “Este é Meu Filho, o Amado, em quem Eu tenho encontrado o Meu deleite” (Mateus 3:17; 17:5).  Os muitos filhos (Hebreus 2:10), que são a reprodução do Filho (João 12:24) – o mesmo que o Filho em vida e em natureza mas não em Divindade ou como um objeto de adoração – são também o deleite do Pai.  Nada traz maior alegria ao coração de Deus do que Seu amado filho, Seu Unigênito (João 3:16), tornar-Se o Primogênito e então ser reproduzido em muitos filhos a fim de formar o Corpo de Cristo culminando na Nova Jerusalém.  Quando esta alegria se tornar plena, o desejo do coração de Deus será cumprido.  O desejo no ser de Deus motivou o universo, a terra e a espécie humana.  Nós existimos para o bom prazer de Deus.

 

                               A Vontade, o Conselho, o Propósito, a Economia e a Obra de Deus

 

O bom prazer de Deus está relacionado com a vontade, o conselho, o propósito, a economia e a obra de Deus.  Efésios 1 fala do “bom prazer da Sua vontade” e “o conselho da Sua vontade” (vv. 5,11).  A vontade de Deus é Seu desejo, aquilo que Ele quer fazer.  Sua vontade flui do desejo do Seu coração, pois Sua vontade está de acordo com o Seu bom prazer.  A vontade de Deus é portanto uma expressão do Seu desejo e deleite.  O universo e tudo nele existem por causa da vontade de Deus: “Tu criaste todas as coisas, e por causa da Tua vontade vieram a existir e foram criadas” (Apocalipse 4:11).  O bom prazer de Deus, corporificado e emergido de Sua vontade, está no coração da origem do universo.  Ao ter uma vontade de acordo com o Seu bom prazer, Deus criou todas as coisas para Sua vontade a fim de que Ele pudesse cumprir o desejo do Seu coração.  Semelhante a um livro sobre a administração universal de Deus, Apocalipse apresenta a visão que a vontade de Deus em Sua criação é ter a Nova Jerusalém para Sua eterna habitação, expressão e satisfação.

 

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 bom prazer de Deus, o desejo do Seu coração, é um assunto no coração de Deus, e por causa deste bom prazer Ele decidiu realizar algo; isto é a vontade de Deus.  Então, de acordo com Sua vontade, houve um concílio  entre os três do Deus Triúno de maneira a fazer um conselho, isto é, uma decisão, uma vontade determinada (Efésios 1:11).  O conselho de Deus é, portanto, a resolução divina consumada em um concílio da Trindade Divina.  Visto que o conselho da vontade de Deus estava escondido em Deus, ele tornou-se um mistério (Efésios 3:9); entretanto, por intermédio do ministério de Paulo, Deus tornou “conhecido para nós o mistério de Sua vontade de acordo com o seu bom prazer, que Ele propôs em Si mesmo” (Efésios 1:9).

 

Conforme o conselho de Sua vontade, o Deus Triúno fez um propósito (Efésios 3:11; Romanos 8:28), e este propósito tornou-se a economia divina (1Timóteo 1:4; Efésios 1:10; 3:9).  O eterno propósito (Efésios 3:11), o propósito das eras é o plano eterno que Deus fez na eternidade passada.  Deus tem um plano, um propósito, por que Ele tem uma vontade de acordo com o Seu bom prazer.  Literalmente, a palavra grega para propósito, em Efésios, significa “estabelecer antecipadamente”.  Para realizar este plano estabelecido antecipadamente semelhante a uma matriz, Deus necessita de uma economia – uma administração e estratégia dos negócios da família a fim de dispensar a Si mesmo para dentro do Seu povo escolhido e redimido para Sua expressão corporativa.  A vontade de Deus emana do Seu bom prazer; o propósito de Deus está baseado na Sua vontade; e a economia de Deus é Sua administração e estratégia planejada para levar a cabo Seu eterno propósito.

A obra de Deus, incluindo Sua obra na criação, com todas as suas variadas atividades é para Sua economia.  Esta obra tem como sua causa o desejo do coração de Deus, Seu bom prazer.  Deus tem estado trabalhando e continua a trabalhar para satisfazer o profundo desejo dentro do Seu próprio ser.  Em virtude deste desejo, que está corporificado na vontade de Deus, todas as coisas foram criadas.  Isto significa que fomos criados para o bom prazer, vontade, propósito, e economia de Deus.

 

                Uma Conferência dos Três da Deidade concernente à Criação do Gênero Humano    

 

“Deus disse: Façamos o homem à Nossa imagem, conforme a Nossa semelhança (Gênesis 1:26).  Façamos indica que uma conferência, um conselho foi estabelecido entre os três da Deidade concernente à criação do gênero humano.  Nesta conferência, a decisão crucial foi feita para criar o homem “à Nossa imagem, conforme a nossa semelhança”.  O fato que a decisão para criar o gênero humano foi feita pelo Deus Triúno revela que a criação do homem foi o propósito do Deus Triúno.  Ao passo que uma visão comum e superficial da criação assevera que Deus criou o homem por que Ele queria alguém para amar ou por que Ele queria ter comunhão, a Bíblia revela que a criação do gênero humano foi para o bom prazer, vontade, propósito e economia de Deus levada a cabo pelo dispensar divino de Si mesmo para dentro de vasos humanos.

 

A conferência da Deidade em Gênesis 1:26 está relacionada com o conselho da vontade de Deus em Efésios 1:11 e com “o determinado desígnio e presciência de Deus” em Atos 2:23.  Antes da criação do homem, o Deus Triúno manteve um concílio no qual os três da Trindade Divina fizeram um conselho concernente a como criar o homem.  Este conselho era a visão de Deus na Sua criação do gênero humano e esta visão era Seu desígnio, Seu projeto.  Witness Lee expressa o assunto desta maneira:

 

Deus criou o homem numa certa visão, de acordo com um certo plano.  Esta visão era o projeto de Deus... Deus fez um plano em Seu divino conselho.  Este conselho era a visão na qual Deus criou o homem.  Quando Deus criou o homem, Ele tinha um projeto.  Este projeto era Seu conselho, e este conselho era a visão na qual Ele fez o homem.  (Central 50)

 

                                                       A Imagem e Semelhança de Deus

 

Uma das maiores revelações não apenas no livro de Gênesis mas em toda a Bíblia é a palavra concernente à imagem e semelhança em Gênesis 1:26.  Lembre-se de que aqui Deus disse: “Façamos o homem à Nossa imagem, conforme a nossa semelhança”.  O verso 27 continua a dizer: “E Deus criou o homem à Sua imagem; à imagem de Deus Ele o criou; macho e fêmea Ele os criou”.  Qual é a diferença entre a imagem de Deus e a semelhança de Deus?  Inicialmente, devemos responder que a imagem refere-se a algo interior, e a semelhança a algo exterior.  No que diz respeito à criação do homem, a imagem está relacionada ao ser interior de Deus, e a semelhança, à expressão exterior de Deus. 

 

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 imagem de Deus é Cristo, o Filho de Deus como a expressão do Deus invisível na essência dos Seus atributos (Colossenses 1:15; 2Coríntios 4:4).  Embora Deus seja invisível, o Filho de Deus, o Qual é a corporificação da Sua plenitude (Colossenses 2:9), o resplendor de Sua glória, e a expressão exata de Sua substância (Hebreus 1:3), é a imagem de Deus, expressando aquilo que Ele é em Seus atributos.  Uma vez que a imagem de Deus é Cristo, para o homem ser feito à imagem de Deus significa que o homem foi feito à imagem de Cristo.  Isto revela que, em Sua criação do gênero humano, a intenção de Deus era que eventualmente Cristo pudesse entrar no homem, pudesse viver no homem e ser expresso através do homem.

 

Quando utilizada em Gênesis 1:26,27, a palavra imagem refere-se especialmente à expressão daquilo que Deus é em Seus atributos, os mais proeminentes dos quais são amor, luz, justiça e santidade.  Deus é amor e luz, e Deus é justo e santo.  O amor é a natureza da essência de Deus, e luz é a natureza da expressão de Deus.  Justiça denota a maneira de Deus fazer as coisas, e santo denota a natureza interna de Deus.  Deus é amor em Sua essência, luz em Sua expressão, justo em Seus atos, e santo em Sua natureza.  A imagem de Deus é, portanto, representada por quatro palavras: amor, luz, justiça e santidade.  O homem foi feito à imagem de Deus e a imagem de Deus é uma questão de amor, luz, justiça e santidade.  Portanto, para Deus criar o homem à Sua própria imagem significa que Ele criou o homem com a capacidade de conter  amor,  luz,  justiça e  santidade de Deus.  Em Deus,  amor,  luz,  justiça e  santidade são atributos divinos; nos seres humanos,  amor, luz, justiça e santidade são virtudes humanas.  Deus criou-nos à Sua imagem com virtudes que nos dão a capacidade de conter e expressar Deus em Seus atributos divinos.

 

 O essencial aqui é que o homem foi feito por Deus para ter amor e luz e caminhar em justiça e ser santo.  O homem tem estas virtudes por que ele foi criado à imagem de Deus, à imagem do amor, luz, justiça e santidade de Deus.   As virtudes humanas criadas por Deus são a capacidade de conter os atributos de Deus.  (Lee, Lucas 490)

 

O homem foi criado não somente à imagem interior do Deus Triúno mas também de acordo com a semelhança exterior do Deus Triúno.  Enquanto imagem  refere-se ao ser interior de Deus, semelhança refere-se à forma exterior de Deus, Sua expressão exterior.  A semelhança de Deus é a forma do ser de Deus (Filipenses 2:6), a expressão da essência e natureza da pessoa de Deus (Lee, Central 59).  “A imagem é a realidade interior da expressão exterior, e a semelhança é a expressão ou a aparência exterior da imagem” (Lee, Lucas 486).  Para o cumprimento do bom prazer de Deus, Seu desejo para uma expressão corporativa, Deus fez o homem à Sua imagem, Seu ser interior, e conforme a Sua semelhança, Sua forma exterior.

 

                                           Espécie de Deus, Não Espécie Humano

Quando consideramos o registro em Gênesis 1, nós vemos que, com exceção do homem, todos os seres viventes foram criados conforme a “sua espécie”  (vv. 11,12; 21; 24,25).  É crucial para nós entendermos que o homem não foi feito conforme a sua espécie; ao contrário, o homem foi feito conforme a espécie de Deus (vv. 26,27).  Nós temos enfatizado o fato que o homem foi criado à imagem de Deus e conforme a Sua semelhança.  Isto significa que o homem foi criado conforme a espécie de Deus, não conforme a própria espécie do homem.  Deus criou o homem desta maneira a fim de que por intermédio de Sua economia o homem pudesse receber a vida divina e a natureza divina e, por conseguinte, tornar-se a expressão de Deus (João 3:16; 1João 5:11-12; 2Pedro 1:4).

 

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recisamos ter o entendimento espiritual para entender que Deus não criou realmente uma espécie humana.  Conquanto, Deus criou todos os outros seres vivos  conforme a sua espécie, Ele não criou uma espécie humana, isto é, o homem conforme a própria espécie do homem.  Antes da queda do homem, não havia humanidade, somente o homem conforme a espécie de Deus.  Do ponto de vista de Deus, humanidade é um termo negativo, e no que diz respeito ao propósito e a perspectiva eternos de Deus, não devia haver  espécie humana.  Como veremos no segundo e terceiro volumes desta série em três partes, quando o homem se afastou de Deus e começou a viver por si mesmo e de acordo com si mesmo, ele tornou-se espécie humana.  Desta maneira, o homem criado por Deus conforme a espécie de Deus tornou-se espécie humana,  homem conforme a sua própria espécie.  Entretanto, na plena salvação de Deus, os eleitos de Deus são regenerados não meramente para serem restaurados ao status original da espécie de Deus, mas para serem elevados a um status muito mais alto e para tornarem-se uma nova espécie – Deus-humanidade.  É central para nosso entendimento da criação e regeneração o ponto vital que Deus criou o homem conforme a Sua espécie com o objetivo de que o homem conforme à espécie de Deus fosse nascido de Deus, regenerado, a fim de tornar-se Deus-humanidade.  O propósito eterno de Deus não é cumprido nem com a espécie humana nem com o homem conforme a espécie de Deus, porém com o homem regenerado para ser Deus-humanidade.

 

                                                          Um Homem Corporativo

 

O homem que foi criado como espécie de Deus, à imagem de Deus e conforme a semelhança de Deus, era um homem corporativo.  É significante que Gênesis 1:26,27 fala de Deus criando a “eles”,[1] indicando que o homem criado por Deus era um homem corporativo.  Gênesis 5:1,2 desenvolve este pensamento:  “Quando Deus criou Adão, Ele o fez conforme a semelhança de Deus.  Macho e fêmea Ele os criou, e abençoou-os e chamou o nome deles Adão, no dia quando eles foram criados”.  A palavra ele (na versão em inglês do autor é eles [plural, não singular] - N. T.) em Gênesis 1:26,27 e a palavras os, os e lhes em Gênesis 5:2 revelam que Adão era um homem corporativo, um homem coletivo, incluindo todos da humanidade.  Deus não criou muitos seres humanos individuais; ao contrário, Deus criou um homem corporativo à Sua imagem e conforme a Sua semelhança de maneira que este homem coletivo pudesse expressá-lO corporativamente.  Este homem corporativo criado como espécie de Deus é verdadeiramente um tipo do novo homem (Efésios 2:15; 4:24; Colossenses 3:10), um Deus-homem corporativo, regenerado e transformado para ser Deus-humanidade.  Com ambos os tipos em Gênesis e a realidade em Efésios e Colossenses, nós temos o mesmo pensamento divino – que Deus deseja obter em, com e através da humanidade uma expressão corporativa de Si mesmo.  Por isto, fomos criados, e por isto fomos regenerados.

 

                                                              A Duplicação de Deus

 

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epois que Deus fez o homem corporativo à Sua imagem e conforme a Sua semelhança, Ele os abençoou para o propósito da multiplicação.  “Deus os abençoou; e Deus disse para eles: Sede fecundos e multiplicai, e enchei a terra” (Gênesis 1:28).  Esta multiplicação dos seres humanos carregando a imagem de Deus implica que o gênero humano foi criado para a duplicação de Deus. 

 

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 imagem de Deus está relacionada à Sua duplicação, e em Gênesis 1:26,27, imagem é para Deus ser duplicado, ser reproduzido em seres humanos.  Isto indica  que para o gênero humano ser criado à imagem de Deus e conforme a semelhança de Deus significa que os seres humanos foram criados de uma tal maneira que eles podem tornar-se a duplicação de Deus.  Deus nos criou à Sua imagem com a intenção de que nos tornaríamos Sua reprodução.  Como um pai é reproduzido em seus filhos, da mesma maneira, Deus deseja ser reproduzido nos seres humanos criados por Ele à Sua imagem.  Isto não significa, naturalmente, que Deus pode ser multiplicado em Sua Deidade ou reproduzido como o objeto exclusivo de adoração.   Nós podemos tornar-nos a duplicação de Deus somente no sentido limitado de sermos nascidos dEle para sermos filhos genuínos possuindo Sua vida e natureza, porém não a Deidade.

 

Enquanto em Gênesis 1 nós temos  seres humanos criados à imagem de Deus, com o potencial para tornarem-se a duplicação de Deus, no Novo Testamento, temos os crentes em Cristo regenerados e então transformados e conformados à imagem de Cristo para a realidade e a veracidade da duplicação de Deus.  Nesta luz, precisamos considerar a palavra do Senhor em João 12:24: “A não ser que o grão de trigo caia na terra e morra, fica ele só; mas se morrer, produz muito fruto”.  O “grão de trigo” é Cristo, Deus encarnado, como o primeiro Deus-homem.  Visto que não é o propósito de Deus este grão habitar sozinho, Cristo morreu não somente para tirar o pecado do mundo (João 1:29) e expulsar o príncipe do mundo (João 12:31), mas também para liberar a vida divina de dentro da “casca” de Sua humanidade para o Seu crescimento (João 3:29,30).   Esta vida divina liberada é o significado da água que fluiu de Seu lado ferido (João 19:34).  Em Sua ressurreição, através da qual nós fomos regenerados (1Pedro 1:3), a vida liberada através da Sua morte foi impartida para dentro dos Seus crentes, e eles se tornaram
Seus irmãos.  Portanto, o Senhor pôde dizer a Maria: “Vai ter com meus irmãos, e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus”  (João 20:17).  Estes irmãos, com os quais o Senhor não está envergonhado de identificar-Se (Hebreus 2:11), são a duplicação de Cristo e a reprodução de Deus.  Como a duplicação de Cristo, somos irmãos de Cristo; como a reprodução de Deus, somos filhos de Deus (Hebreus 2:10).  Estes irmãos, estes filhos, no aspecto (vida) orgânico da salvação completa de Deus (Romanos 5:10), estão agora passando por um processo metabólico de transformação em e conformação à “mesma imagem”  (2Coríntios 3:18; Romanos 8:29) – a imagem do Cristo ressuscitado e glorificado como o Primogênito de Deus.  A consumação final deste processo de duplicação e reprodução será a Nova Jerusalém como o cumprimento eterno de Gênesis 1:26.  Criação, portanto é para reprodução por meio da regeneração.

 

                                                             Um Vaso para Conter Deus

 

Deus criou o gênero humano à Sua imagem de maneira que os seres humanos pudessem se tornar Sua reprodução para Sua expressão corporativa.  Se queremos ser a reprodução e expressão de Deus, devemos conter Deus e ser enchidos por Deus.  Como usado em Gênesis 1, imagem implica a capacidade de conter Deus, e isto nos leva ao assunto de seres humanos como vasos para serem enchidos por Deus.

 

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clara e consistente a revelação da Bíblia que o homem criado por Deus à Sua imagem é um vaso para receber Deus e para conter Deus.  De fato, o ensino básico das Escrituras, no que diz respeito ao gênero humano, é que os seres humanos são vasos criados à imagem de Deus para conter Deus como o conteúdo único.  Gênesis 2:7 diz: “Jeová Deus formou o homem com o pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego da vida, e o homem tornou-se alma vivente”.  Que esta “alma vivente” é um vaso é indicado pela palavra formou, uma tradução da palavra hebraica que sugere a atividade de um oleiro em formar ou modelar um vaso.  O pensamento dos seres humanos como vasos é desenvolvido por toda a Bíblia, por exemplo, o desvelar em Jeremias 18:1-10 de Deus como o Oleiro e do Seu povo como vasos de barro na mão do oleiro.  Que o Oleiro é soberano sobre o vaso humano é revelado também em Romanos: “Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro para desonra?” (9:21).  Vasos de honra contêm o Deus de honra; isto é o que os faz honoráveis.  No verso 23, Paulo continua a falar de vasos de misericórdia: “A fim de que Ele pudesse fazer conhecidas as riquezas de Sua glória em vasos de misericórdia, os quais Ele preparou de antemão para glória”.  Esta preparação envolveu, em adição à escolha e predestinação de Deus, a obra de Deus na criação para formar vasos humanos que, através da regeneração e transformação, fossem enchidos com o conteúdo divino.  Este conteúdo é o tesouro falado em 2Coríntios 4:7: “Nós temos este tesouro em vasos terrenos para que a excelência do poder possa ser de Deus e não de nós”.  Embora tenhamos sido formados com o pó da terra para tornarmo-nos vasos terrenos, fomos designados para conter o Cristo da glória como nosso tesouro.  Pela criação, o vaso foi formado; pela regeneração, o vaso é enchido.

 

Precisamos ser profundamente impressionados com a verdade que um ser humano é um vaso vivo criado para o propósito de conter Deus e expressá-lO.  Se, como vasos, desejamos ser cheios com Deus e expressar Deus, os atributos divinos – em particular: amor, luz, justiça e santidade – devem encher, fortalecer, erguer e enriquecer nossas virtudes humanas.  Estas virtudes não são apenas parte da imagem de Deus no homem, mas também características essenciais do homem como um vaso vivo.  As virtudes humanas são o recipiente, e os atributos divinos são o conteúdo.  Quando os atributos de Deus são expressos através das nossas virtudes, nós somos, como Deus originariamente planejou, vasos para a glória, para a expressão de Deus.

 

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e sabemos que somos vasos e se recebemos Deus e contemos Deus para Sua reprodução e expressão, então cumprimos o propósito de Deus na criação, e nossas vidas são significativas.  Entretanto, se permanecemos vazios, ou se tentamos encher a nós mesmos com outras coisas que não Deus, falhamos em cumprir o propósito de Deus, e nossas vidas serão sem significado.  Desde que um ser humano é um vaso vivo criado à imagem de Deus, é humano (não religioso) precisar de Deus.  A única maneira de ser genuinamente humano é ser enchido com Deus, em Cristo, como o Espírito, para Sua expressão corporativa.  Para isto, existe uma única exigência – abertura.  Deus necessita de vasos humanos abertos.  Se o vaso está aberto, Deus pode cumprir Seu propósito, porém se o vaso está fechado, o propósito de Deus é frustrado.  Ao invés de tentar trabalhar para Deus ou fazer coisas para Ele, devemos amá-lO e manter-nos abertos para Ele, dando-lhe todo o terreno em nosso ser e permitindo-Lhe fazer em nós o que Ele quer e o que contribuirá para o cumprimento do desejo do Seu coração (Marcos 12:30; Efésios 3:17)

 

                                                                           Um Vaso Tripartido

 

O vaso humano é tripartido – espírito, alma e corpo (1Tessalonicenses 5:23; Hebreus 4:12).  De acordo com a seqüência de Gênesis 2:7, a primeira das três partes do homem é o corpo formado com o pó da terra para ser um órgão externo da pessoa a fim de contatar o mundo físico.

 

O espírito humano foi formado com o sopro de Deus para ser um órgão interno da pessoa para contatar, receber e conter Deus.  A palavra hebraica para sopro em Gênesis 2:7 é traduzida espírito em Provérbios 20:27: “O espírito do homem é a lâmpada de Jeová, / esquadrinhando todas as partes mais interiores do ser interior”.  Isto mostra que o sopro da vida que Deus soprou para dentro do corpo do homem tornou-se o espírito humano.  O espírito humano, entretanto, não é o Espírito de Deus nem a vida eterna de Deus, porém algo próximo ao Espírito e à vida de Deus.  É falso reivindicar que há uma “centelha divina”, um “pedaço de Deus” nos seres humanos por sua própria natureza.  Deus habita no homem, não em virtude da criação, porém em virtude da regeneração, que tem lugar no espírito humano.  Uma vez que o espírito do homem é similar ao Espírito de Deus e à vida de Deus, ele pode receber o Espírito de Deus e a vida de Deus.

 

A alma, a terceira das três partes do ser humano foi produzida pela combinação do espírito humano e do corpo humano.  Como o órgão para contatar o mundo psicológico, a alma, em contraste com o corpo e o espírito, não foi formada de um certo elemento, mas pela combinação do espírito e do corpo.   Enquanto o espírito é o órgão para contatar e receber Deus, a alma é o órgão para expressar Deus.  Por esta razão, os crentes em Cristo são primeiramente nascidos em seu espírito para ter a vida divina para o propósito de Deus e então são transformados em sua alma  a fim de ter a realidade da imagem divina para a expressão de Deus (2Coríntios 3:18).

 

Como é amplamente reconhecido, os cristãos estão divididos acerca do assunto da tricotomia (que o homem é composto de três partes) e dicotomia (que o homem é composto de duas partes, corpo e alma).  É fornecida uma forte expressão da visão da dicotomia em uma nota em A Bíblia de Estudo de Genebra: “A idéia comum de que a alma é apenas um órgão de percepção deste mundo, enquanto o espírito é um órgão distinto, que nos permite estabelecer  comunhão com Deus, trazido à luz na regeneração, está fora dos padrões do ensino bíblico” (10).  Ao contrário, a verdade que o espírito humano e a alma humana, embora intimamente relacionados, são distintos é claramente e enfaticamente revelado na Escritura. Nós somos espírito e alma e corpo (1Tessolicenses 5:23), e nosso espírito e nossa alma podem ser divididos pela Palavra de Deus (Hebreus 4:12).  A mãe de Jesus foi clara acerca desta distinção: “Minha alma engrandece ao Senhor e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador” (Lucas 1:46,47).  É dicotomia, não tricotomia que está “fora dos padrões”, não somente com o ensino bíblico mas com a economia de Deus e a visão da humanidade de Deus.

 

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icotomia é perigosa.  Aqueles que aderem a esta doutrina negam a existência do espírito humano  como um órgão distinto da alma.  Tal negação tem implicações sérias.  Considere o seguinte:

 

“Qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o seu próprio espírito, que nele está?” (1Coríntios 2:11).  Negar a existência do espírito humano é negar uma parte crucial da nossa humanidade por Deus-criada.

 

“Assim declara Jeová, o que estende os céus e lança os fundamentos da terra e forma o espírito do homem dentro dele” (Zacarias 12:1).  Aqui, o espírito do homem se iguala com os céus e a terra em importância.  Os céus são para a terra, a terra é para o homem e o homem, com seu espírito, é para Deus e Seu bom prazer.  Aqueles que negam o espírito humano não podem conhecer nem o significado da vida humana nem o propósito eterno de Deus.

 

“O que é nascido do Espírito é espírito” (João 3:6).  Negar a existência do espírito humano leva ao mau entendimento da natureza e experiência da regeneração, e pode até acarretar um repúdio da verdade bíblica de que os crentes em Cristo têm nascido de Deus no espírito a fim de se tornarem filhos genuínos de Deus, possuindo Sua vida e natureza.

 

“O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Romanos 8:16).  Negar o espírito humano é negar o testemunho do Espírito com nosso espírito que nós somos filhos de Deus, regenerados por Ele.

 

“O Senhor seja com o teu espírito” (2Timóteo 4:22).  Negar a existência do espírito humano é ser ignorante do lugar onde Cristo habita dentro de uma pessoa regenerada (cf. Efésios 2:22).

 

“Aquele que se une ao Senhor é um espírito” (1Coríntios 6:17).  Negar o espírito humano é negar a união orgânica dos crentes com o Deus Triúno em Cristo, e assim anular a experiência subjetiva do Deus Triúno processado e consumado, revelado no Novo Testamento (Efésios 3:16,17).

 

Deus criou-nos com um espírito com a intenção que um dia nós creríamos em Cristo, o Filho de Deus e por meio disso seríamos regenerados em nosso espírito para tornar-nos filhos de Deus para o cumprimento do propósito de Deus na criação.  O espírito dentro do homem criado por Deus é o órgão único para contatar, receber e conter Deus.  Para o espírito funcionar desta maneira, ele deve ser regenerado.  O espírito do homem foi feito por Deus de maneira que, conforme a economia de Deus, o espírito humano pudesse ser nascido de Deus.  Isto é uma outra indicação de que a criação é para regeneração.

 

                                                     Criação e a Vida Enxertada

 

A Bíblia revela que o relacionamento que Deus deseja ter com Seu povo escolhido e redimido é que Ele e eles se tornem um.  As palavras do Senhor Jesus em João 15:5 – “Eu sou a videira; vocês são os ramos” – revela que o desejo de Deus é para a vida divina e a vida humana serem juntadas a fim de tornarem-se uma vida.  Esta espécie de unicidade é uma união orgânica, uma união em vida.  O que Deus quer é juntar-Se a Seu povo de uma tal maneira que Ele e eles se tornem uma entidade orgânica.

 

O anseio de Deus para entrar numa união orgânica com os seres humanos é revelado em Sua criação da espécie humana.  Deus nos criou à Sua própria imagem a fim de que Ele pudesse ser um conosco.  Deus nos fez para ser vasos, pois Ele deseja vir para dentro de nós e encher-nos com Ele próprio, de maneira a ser um conosco.  Deus formou um espírito dentro de nós por que Ele é Espírito (João 4:24) e deseja regenerar nosso espírito e, desse modo, tornar-Se um espírito conosco.  Criação é para união orgânica baseada sobre a regeneração.

 

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o descrever a união de vida que Deus tenciona ter com Seu povo, ficamos felizes em usar uma expressão maravilhosa – a vida enxertada (Romanos 11:17-24).  O conceito da vida divina e da vida humana sendo enxertadas juntas, como uma vida, é profundo, misterioso e estranho ao pensamento humano; entretanto, isto é precisamente o que Deus deseja, e esta é a razão para nossa existência.

 

No enxerto, duas vidas similares são unidas e então crescem juntas organicamente.  Enxertar é baseado na  similaridade; ele só pode acontecer e ser efetivo se as vidas que têm que se juntar são similares.  Por causa da vida humana criada ser similar à vida humana incriada, e por que a vida humana assemelha-se à vida divina, a vida humana e a vida divina podem ser juntadas, enxertadas e então crescerem juntas organicamente.

 

Este enxertar tem lugar em nosso espírito, não em nossa alma.  Nós temos mostrado que o  sopro da vida soprado para dentro do corpo do homem tornou-se o espírito humano e que o espírito humano não é a vida de Deus ou o Espírito de Deus, mas está muito próximo da vida de Deus e do Espírito de Deus.  Visto que nosso espírito foi criado com o sopro da vida, nosso espírito pode tornar-se um espírito com o Senhor (1Coríntios 6:17).

 

Contrária à noção de certos professores cristãos, a vida enxertada que Deus deseja não é uma vida trocada mas o mesclar da vida divina com a vida humana.  O Senhor não exige que desistamos da nossa vida inferior em troca da Sua vida superior.  Ele não espera que nós rendamos nossa vida humana a Ele de maneira que Ele possa  trocá-la pela Sua vida.  Na vida enxertada da qual estamos falando, não há intercâmbio ou comércio de vidas.  Ao invés de intercâmbio, há o dispensar da vida divina para dentro da vida humana e o mesclar da vida divina com a vida humana.  Quando somos enxertados juntos com Deus em Cristo, a vida humana por nenhum meio é eliminada; ao contrário, a vida humana é fortalecida, soerguida e enriquecida pela vida divina.

 

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 Senhor é a videira, e nós somos os ramos que têm sido enxertados para dentro dEle, e agora Ele e nós estamos unidos em uma união orgânica, vivendo uma vida enxertada, na qual, nós e Ele temos uma vida e um viver.  Como ramos, nós, os crentes em Cristo, retemos nossas características essenciais, porém nossa vida é enriquecida e transformada ao ser enxertada para dentro da vida divina, a mais alta vida, nossas faculdades criadas e soerguidas por Deus para o mais alto nível, e nossas virtudes humanas são enchidas com e fortalecidas  pelos atributos divinos.  A medida em que habitamos em Cristo como a videira verdadeira, vivendo nesta maravilhosa e misteriosa união orgânica com o Deus Triúno, em espírito, a vida divina satura nosso ser tripartido e conforma-nos à imagem de Cristo como o Primogênito de Deus para a expressão corporativa e eterna de Deus.

 

                                        O vaso Humano Colocado em Frente da Árvore da vida

 

Se entendermos o pensamento divino no que diz respeito à vida enxertada, seremos capazes de apreciar o significado da árvore da vida em Gênesis 2:9: “Da terra, Jeová Deus fez crescer toda árvore que é agradável à vista e boa para alimento, como também a árvore da vida no meio do jardim”.  Nada é mais central e crucial para o relacionamento entre Deus e a espécie humana do que a árvore da vida que, num sentido verdadeiro, é o centro do universo.  A árvore da vida significa o Deus Triúno corporificado em Cristo para ser vida na forma de alimento.  O fato que Deus colocou o homem em frente à árvore da vida indica que, na Sua criação do homem, Deus queria que o homem O recebesse como vida ao comê-lO organicamente e então ao digeri-lO e assimilá-lO metabolicamente, com o resultado que Deus, sendo dispensado para dentro do homem, tornar-se-ia o elemento de constituição do ser regenerado do homem.

 

A

 árvore da vida em Gênesis é uma figura significando Deus em Cristo como nossa vida.  O Novo Testamento revela que Cristo é o cumprimento desta figura.  Por um lado, Ele é a árvore (João 15:1); por outro lado, Ele mesmo é vida (João 14:6).  Por conseguinte, Cristo é a árvore da vida.  No capítulo seis do Evangelho de João, Cristo como a árvore da vida é desvelado como o pão da vida.  Visto que a vida está em Cristo o Filho de Deus (1João 5:11,12), a única maneira de podermos ter vida é tendo o Filho.  “Aquele que tem o Filho tem a vida” (1João 5:12).

 

A vida carrega uma maravilhosa revelação: Somente a vida de Deus (Efésios 4:18) é vida.  À vista de Deus, somente Sua vida é vida; outras espécies de vida devem ser consideradas como não-vida.  Por esta razão, quando a vida de Deus é mencionada no Novo Testamento, ela é tratada como se fosse a única vida (João 1:4; 10:10; 11:25; 14:6).  Esta vida é a vida eterna, incriada, indestrutível.  Tal vida é o primeiro e básico atributo de Deus, ela é o conteúdo de Deus (João 1:4).  A vida é também o jorrar de Deus, pois quando o Deus Triúno jorra em Cristo como o Espírito para ser dispensado para dentro dos Seus escolhidos, Ele jorra como vida (Apocalipse 22:1).

 

Depois que Deus criou o homem à Sua imagem conforme a Sua semelhança como um vaso tripartido para contê-lO e expressá-lO, Deus colocou este vaso diante da árvore da vida.  Isto é um assunto da maior significância por um número de razões.

 

Primeiro, o fato de Deus colocar o homem diante da árvore da vida indica que o homem não recebeu a vida de Deus quando da criação.  Enquanto criado por Deus, o homem não possuía a vida de Deus, mas tinha somente uma vida humana criada que era pura e correta.  Precisamos estar muito claros a este respeito e rejeitar as idéias errôneas que, na criação, o homem tinha a vida de Deus, mas então perdeu a posse desta vida por meio da queda.  Não, a espécie humana não tinha a vida de Deus para começar, e mesmo antes de e, à parte da queda, necessitava de receber Deus em Cristo como vida simbolizado pela árvore da vida.

Ademais, quando Deus colocou o homem em frente à árvore da vida, Ele estava indicando que Sua intenção era dispensar-Se para dentro do homem como vida na forma de alimento.  Deus tem feito conhecida esta intenção por intermédio de Sua Palavra, porém, tristemente, isto tem sido ocultado da maioria dos cristãos, incluindo muitos teólogos e profissionais religiosos.  Que grande bênção é conhecer o desejo de Deus e tocar a profunda aspiração dentro do Seu ser de dispensar-Se, impartir-Se, transfundir-Se como vida para dentro dos seres humanos criados por Ele.

 

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eus ter colocado o homem próximo à árvore da vida também revela este propósito eterno de Deus, o propósito para o qual Ele criou o universo e a espécie humana pode ser cumprido somente por meio de Sua vida.  A fim de realizar o propósito de Deus, devemos obter a vida de Deus representada pela árvore da vida.  Embora o homem fosse feito à imagem de Deus e fosse formado como um vaso tripartido para conter Deus, separado da vida de Deus o homem, no seu melhor, é vazio e incapaz de levar a cabo o propósito de Deus na criação.  Vida é o meio de Deus de cumprir Seu propósito.

 

Isto nos leva  àquilo que é, razoavelmente, o assunto mais importante relacionado a Deus ter colocado o homem em frente à árvore da vida.  Esta atitude revela que o homem criado por Deus à Sua imagem, embora sem cair, necessitava de ser regenerado.  Aqui, temos um ponto maravilhoso e admirável: era necessário para este homem perfeito criado por Deus, este vaso puro e correto feito à imagem de Deus, nascer de Deus, nascer de novo.  Por que nós, seres humanos, precisamos ser regenerados?  Precisamos ser regenerados não principalmente ou meramente por que somos pecadores; precisamos ser regenerados por que somos humanos e, sendo humanos, não possuímos a vida de Deus.  A única maneira de receber a vida de Deus é nascer de Deus.  O significado fundamental da regeneração é este: nascer de Deus é receber uma outra vida em adição à vida humana criada, e esta outra vida é a vida eterna, a vida divina, a vida de Deus.  Deus nos criou com a intenção de regenerar-nos.  Este é o motivo por que Ele colocou Seu precioso vaso humano em frente à árvore da vida.  O propósito de Deus na criação exigia regeneração, ainda que os seres humanos não tivessem caído.

 

                                                                      Criação e a Nova Criação

 

Conforme a revelação no Novo Testamento, regeneração está  intrinsecamente relacionada à nova criação, pois quando alguém é regenerado pelo Espírito através de crer em Cristo, esta pessoa se torna uma nova criação em Cristo (2Coríntios 5:17).  Nós introduzimos este pensamento, neste momento oportuno, por que devemos agora continuar a ver que a criação de Deus é para a nova criação e que a intenção de Deus em Sua criação do homem era que o homem desejasse receber a vida divina e ser regenerado para tornar-se a nova criação. 

 

Na Bíblia, há duas criações – a velha (ou primeira) criação, e a nova criação.  Não há nada da vida e da natureza de Deus envolvida com qualquer aspecto da velha criação.  Isto significa que Deus não está na velha criação.  ainda que a criação tenha vindo à existência pela palavra e o vigoroso poder do Deus vivo, Ele mesmo não reside dentro dela.  Ela veio a existir através dEle e isso mostra Sua sabedoria e poder, entretanto ela não O contém.  Enquanto a velha criação não tem a vida divina e a natureza divina, a nova criação tem Deus dentro de si como sua vida, natureza e expressão.  A velha criação é, portanto, um vaso vazio não tendo nenhum conteúdo de Deus, contudo a nova criação como um vaso corporativo  tem Deus como seu conteúdo.  A nova criação é nova por que Deus é operado para dentro dela.

 

A velha criação é para a nova criação.  Deus criou o gênero humano como um vaso para contê-lO; este é o homem como a velha criação – o homem criado por Deus.  Contudo, o propósito eterno de Deus é que este vaso humano fosse cheio e saturado com Ele para Sua expressão; este é o homem como a nova criação – o homem constituído com Deus.

 

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 objetivo de Deus em Sua economia é produzir a nova criação a partir da velha criação.  Verdadeiramente, esta era a intenção de Deus, desde a eternidade, quando Ele nos escolheu em Cristo e nos marcou antes da fundação do mundo (Efésios 1:4,5).  Seu desejo, mesmo antes da existência de qualquer coisa criada, era fazer dos Seus escolhidos e marcados uma nova criação, isto é, produzir uma espécie divina-humana, seres humanos não somente criados à imagem de Deus, mas também enchidos e saturados com a vida e a natureza de Deus.  Para este propósito, Deus criou todas as coisas, incluindo o gênero humano à Sua imagem.  Se entendermos a criação nesta luz, veremos que a criação de todas as coisas conforme a vontade de Deus não era um fim em si mesma, porém um meio para um fim.  Deus trabalhou para produzir a velha criação, e Ele continua a trabalhar na velha criação; entretanto, Deus trabalha na velha criação não para a velha criação mas para ter a nova criação.

 

Agora, precisamos perguntar como Deus produz a nova criação a partir da velha criação.  Deus realiza esta tremenda tarefa trabalhando a Si mesmo em Cristo para dentro do Seu povo escolhido e redimido.  Esta é a obra central de Deus.  A obra central de Deus não é a obra da criação, tampouco a obra da redenção.  A obra central de Deus é a obra de Deus em Cristo, para dispensar-Se, em Sua Trindade Divina, para dentro do gênero humano tripartido, criado por Ele à Sua imagem conforme a Sua semelhança.  Isto, também, é um assunto do bom prazer de Deus.  O desejo do coração de Deus, que tem se tornado Sua vontade e propósito, é trabalhar a Si mesmo, pelo Seu dispensar, para dentro da própria fibra do nosso ser.  Esta é o ponto focal da operação do Deus Triúno no universo.  O material com o qual Deus está trabalhando na velha criação para produzir a nova criação é Ele mesmo, pois Ele está trabalhando a Si mesmo para dentro de nós, fazendo a Si mesmo nossos elementos interiores.  Deus está determinado a fazer isto; nós fomos designados e criados por Ele para isto; e nem Deus nem nós podem estar satisfeitos até que esta obra tenha sido completada e o desejo de Deus para uma nova criação tenha sido plenamente realizado.

 

Do ponto de vista de Deus, a nova criação é produzida pelo Seu trabalhar a Si mesmo para dentro de nós.  Do nosso ponto de vista, a nova criação é produzida pelo nosso ser renovado na vida divina (Romanos 12:2; Colossenses 3:10).  O início do processo de renovação para a nova criação é regeneração.  O propósito eterno de Deus é ter a nova criação primeiramente por criar-nos, então por regenerar-nos.  Se os seres humanos criados por Deus não são regenerados por Ele, não podem tornar-se uma nova criação.  Mesmo numa condição de pré-caído, a espécie humana era a velha criação, não tendo a vida e a natureza de Deus, e portanto, precisando ser regenerada por Deus.  Somente através da regeneração, o nascimento divino no espírito, são a vida e a natureza de Deus dispensadas para dentro de nós a fim de fazer-nos novos.  Assim, a maneira de Deus produzir a nova criação é primeiro regenerar-nos.  Uma vez mais, vemos que os seres humanos precisam da regeneração não meramente por que eles estão caídos, mas por que são humanos.

 

Regeneração, entretanto, é apenas o início do processo de ser renovado (2Coríntios 4:16).  Pelo fato que Deus deseja produzir uma nova criação a partir da velha criação, nós que nascemos como parte da velha criação e renascemos para ser parte da nova criação precisamos ser total e absolutamente renovados, de maneira que possamos tornar-nos a nova criação de Deus.  Visto que estamos sendo renovados, o espírito mesclado, o Espírito renovante (Tito 3:5) mesclado com o espírito humano regenerado, está sendo difundido para dentro da nossa mente para renovar todo o nosso ser (Efésios 4::23).  Uma vez que estamos sendo renovados, o Espírito de Deus infunde os atributos de Deus para dentro das nossas partes interiores, enriquecendo e soerguendo nossas virtudes humanas com Seus atributos divinos que são para sempre novos e eternos e imarcescíveis (Apocalipse 21:5). 

 

Neste processo, renovação, criação, regeneração e deificação são trazidas juntas.  Ser renovado é ter o elemento de Deus adicionado para dentro do nosso ser e fazer-nos o mesmo que Deus em Sua novidade.  Para nós, tornar-se novo significa que nos tornamos divinos, que nos tornamos Deus, em vida e em natureza.  Novidade é, na realidade, o próprio Deus; portanto, para nós, tornar-se novo significa que nos tornamos Deus em Seu atributo de novidade por ter Deus trabalhado para dentro de nós.  Quando Deus, que é para sempre novo e que jamais se torna velho, trabalha Sua sempre-nova essência para dentro de nós, somos constituídos com Deus e através disto nos tornamos Deus como uma nova criação em Cristo.

 

Criação é para regeneração, e regeneração é para deificação, a qual nós podemos entender como o processo de tornar-se o mesmo que Deus em Sua novidade para a nova criação.  Esta nova criação, em sua manifestação final e consumada, é a Nova Jerusalém.  Como o auge da criação, regeneração e deificação, a Nova Jerusalém é o novo homem corporativo, a composição do povo de Deus criado, regenerado e renovado.  Isto é o que Deus tinha em mente quando declarou: “Façamos o homem”. 

 

                                            Criaturas de Deus Tornando-se Filhos de Deus

 

A fim de produzir a nova criação a partir da velha criação, Deus deve regenerar os filhos que possuem Sua vida e natureza, pois a nova criação é a totalidade da filiação divina, a congregação dos filhos de Deus (Gálatas 6:15; 3:27; 4:5-7).  A nova criação, sendo composta de filhos, é uma filiação corporativa.  Se Deus é para ter esta nova criação, esta filiação corporativa, Ele deve ter uma maneira, em Sua economia, de levar estas criaturas a tornarem-se Seus filhos.  O modo de Deus mudar os seres humanos como criaturas de Deus para seres humanos como filhos de Deus é levar Suas criaturas a serem regeneradas.

 

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ós devemos rejeitar totalmente a noção de que os seres humanos são filhos de Deus por criação e não por regeneração.  Entrementes, alguns podem usar Lucas 3:38 como base para argüir que somos filhos de Deus com a vida e a natureza de Deus simplesmente pela virtude da nossa criação.  Este verso, a conclusão em Lucas, diz: “O filho de Enos, o filho de Sete, o filho de Adão, o filho de Deus”.  Usada com respeito a Adão, a frase o filho de Deus não significa que Adão foi regenerado por Deus a fim de possuir a vida e a natureza de Deus.  Adão é chamado o filho de Deus não por que ele nasceu de Deus, mas por que ele foi criado por Deus.  Deus foi sua origem, e por esta razão somente ele foi um filho de Deus.

 

O pensamento aqui é similar àquele em Atos 17:28: “Pois nEle vivemos, e nos movemos, e somos, como alguns dos vossos poetas têm dito: Porque nós somos também Sua raça”.  Da mesma maneira que Adão é chamado o filho de Deus, a espécie humana é chamada “a raça de Deus” (Atos 17:29).  Os seres humanos são a raça de Deus, simplesmente e meramente por que eles foram criados por Deus, não por que eles nasceram de Deus por intermédio da regeneração.  Visto que Deus é o Criador, a fonte única de todas as coisas e de todas as pessoas, Ele é o Pai de todos os seres humanos em um sentido natural (Malaquias 2:10).  Isto é intrinsecamente diferente de Deus ser o Pai dos crentes em Cristo no sentido espiritual de levá-los a ser renascidos no seu espírito e desse modo tornarem-se Seus filhos regenerados (não meramente criados) possuindo Sua vida e natureza.

 

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 fundamental para nosso entendimento da criação para regeneração é a distinção entre a raça de Deus em Atos 17:29 e os filhos de Deus em Gálatas 3:26. Os teólogos que ensinam que todo ser humano é um filho de Deus podem assumir que a palavra de Paulo em Atos 17:28,29 fornece crédito para esta visão errônea.  Como temos apontado, como o Criador, fonte e origem da espécie humana, Deus é o Pai de todos no sentido limitado de produzir a espécie humana por soprar o fôlego de vida para dentro do corpo humano, levando o homem a tornar-se uma alma vivente (Gênesis 2:7), e desse modo produzindo a espécie humana como Sua raça, isto é, a raça criada, a raça de Deus na criação.  Entretanto, a raça de Deus enfaticamente não significa que os seres humanos produzidos na criação foram simultaneamente nascidos de Deus e se tornaram a raça de Deus na regeneração.  Conquanto todos os seres humanos são filhos de Deus e membros da raça de Deus por criação, certos seres humanos – aqueles que crêem em Cristo e recebem vida eterna (João 3:15) – tornam-se os filhos de Deus por regeneração. 

 

Ser produzido por Deus na criação é uma coisa; ser nascido de Deus na regeneração é algo muito diferente.  Todos os seres humanos são a raça de Deus no sentido de ter sido produzido por Deus por meio da criação; entretanto, somente os crentes em Cristo são os filhos de Deus no sentido de terem nascido dEle pela regeneração.  Ademais, os seres humanos como a raça criada de Deus não têm a vida de Deus nem a natureza de Deus, contudo os crentes em Cristo como os filhos de Deus por meio da fé em Cristo têm a vida de Deus e a natureza de Deus.  Deus é seu Pai não somente na criação mas também na regeneração (João 20:17).  A raça de Deus veio à existência por meio da criação de maneira que os filhos de Deus pudessem vir à existência por meio da regeneração.  A criação da raça de Deus é para o nascimento dos filhos de Deus.

 

Efésios 1:4,5 diz: “Assim como Ele [o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo – v. 3] nos escolheu, nEle, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante Ele em amor, nos predestinou para Ele para a filiação, por meio de Jesus Cristo, segundo o bom prazer da Sua vontade”.  O verso 5 não diz “nos predestinou para a criaturicidade”[2]  ele diz: “nos predestinou para a filiação”.  Deus não quer meras criaturas possuindo a vida humana natural criada; Ele quer filhos possuindo a vida eterna divina, incriada.  Para o cumprimento deste desejo em Si mesmo, Deus nos predestinou para sermos filhos de Deus antes que fôssemos criados.  A vontade de Deus, conforme a qual Ele criou todas as coisas para o Seu bom prazer, é ter uma multidão de filhos para Sua expressão corporativa.  A criação é o procedimento, mas a filiação é o alvo.  A intenção de Deus na criação era produzir filhos de Deus por meio da regeneração.  Com tal objetivo em vista, Deus sabia que os seres humanos criados por Ele, como criaturas à Sua imagem precisariam ser renascidos, regenerados por Ele para tornarem-se Seus filhos para Sua expressão.  Portanto, fomos criados de maneira que pudéssemos ser regenerados.

 

O objetivo desta primeira parte de uma série de três tem sido descrever a verdade profunda que a criação é para regeneração.  A ligação entre criação e regeneração aqui apresentada pode requerer uma reconsideração por parte de alguns do significado e da importância intrínseca da criação e da regeneração.  Por que Deus criou todas as coisas?  Por que nós, seres humanos criados à imagem de Deus e conforme a Sua semelhança, precisamos nascer de novo, regenerados dEle?  Naturalmente, todos nós caímos e, em nós mesmos, somos uma constituição do pecado, e tal condição miserável clama por melhoramento.  Por esta razão, muitos supõem que a regeneração é necessária por que somos pecaminosos.  Isto é certamente verdadeiro, contudo é apenas parcialmente verdadeiro.  Apegar-se à uma verdade que é meia verdade ou parcial,  pode impedir que vejamos a verdade plena.  Se desejamos conhecer a verdade completa concernente à criação e a regeneração, precisamos conhecer o propósito da criação e o sentido da regeneração.  O alvo de Deus em Sua criação de todas as coisas é ter os filhos divino-humanos para Sua expressão corporal, eterna e para isto fomos criados por Ele e nos tornamos Suas criaturas.  Contudo, as criaturas de Deus não são filhos de Deus.  Filiação requer mais que criação – requer regeneração.  Portanto, nós, criaturas humanas de Deus, precisamos nascer de novo, não meramente por que somos caídos e pecaminosos, mas principalmente por que somos humanos.  Como seres humanos criados necessitamos da vida divina necessária para o cumprimento do propósito divino, e a maneira de receber esta vida não é ser criado por Deus mas nascer de Deus.  Fomos criados para sermos recriados, nascidos para sermos renascidos, por que a criação é para regeneração.



[1] Na tradução do autor é “them” que significa “a eles” e portanto, “criou-os” como também “dominem eles” enquanto nas nossas traduções em português temos, geralmente, “domine o homem”; por isso o tradutor preferiu criando “a eles”.  No hebraico temos aqui um singular coletivo: homem está no singular, contudo o verbo dominar está no plural.  (N.T.)

[2] Neologismo cunhado a partir do inglês creaturehood que seria a condição de criatura, em contraste com a condição de filhos,  mas que todavia, não tem uma palavra equivalente no português, o que fez com que o tradutor criasse esta palavra para que o texto ficasse mais claro e não perdesse a força do original. (N.T.)