Criação, Satanificação, Regeneração, Deificação.

 

Parte II: Satanificação e sua Nulificação

 

Por Ron Kangas

 

Tradução não-oficial e não-revisada pelo autor do original inglês: “Creation, Satanification, Regeneration, Deification, Part II: Satanification and Its Nullification", publicado em Affirmation & Critique, acessível em http://www.affcrit.com/archives.html (jornal de pensamento cristão publicado por Living Stream Ministry, Anaheim, CA, E. U. A., detentor do copyright), -Vol VI, No 2, Outubro de 2001. Tradução feita em caráter exclusivamente autoeducacional e não-comercial, por Joaquim Pedro de Azambuja Vieira (jopeunmo@hotmail.com) em Mar 2004. Toda as restrições vigentes acerca de direitos autorais se aplicam a este artigo, em beneficio dos detentores dos referidos direitos.

  


O propósito eterno de Deus é ter uma expressão corporativa de Si mesmo em Cristo como o Filho primogênito e os crentes como os muitos filhos regenerados pelo Pai para serem os membros do corpo de Cristo, o que se consuma na Nova Jerusalém. A Criação é para regeneração, e a regeneração dá início ao processo de deificação—o processo da salvação orgânica de Deus (Rom 5: 10) no qual o povo escolhido e redimido de Deus se torna, em virtude de sua união com Cristo, o mesmo que Deus em vida, em natureza, em constituição, em aparência e em expressão, mas não em Deidade nem como objeto de adoração. O propósito da deificação é a expressão corporativa e eterna do Deus Triúno. Os três assuntos cruciais—a criação, a regeneração e a deificação são para a expressão de Deus.

 

A tese da primeira parte desta série em três partes é que a Humanidade foi criada à imagem de Deus para ser regenerada pela vida de Deus para cumprir o propósito de Deus. Que os seres humanos precisam ser regenerados não principalmente porque são pecaminosos, mas porque são humanos, é central para o entendimento da relação entre criação e regeneração. Precisamos ser regenerados, nascidos de Deus, porque não temos a vida de Deus. Para nós, ser criados por Deus significa que fomos produzidos por Deus para ter uma vida humana; para nós ser regenerados por Deus significa que somos nascidos de Deus para ter a vida divina. Fomos criados para sermos recriados, nascemos para renascer. Mesmo se a espécie humana não tivesse pecado, os seres humanos ainda necessitariam ser regenerados. Como seres humanos que, por criação, têm a vida humana, precisamos ser regenerados por Deus para termos a vida divina, a vida eterna e incriada de Deus. A criação é para a regeneração, e a regeneração preenche o propósito de Deus na criação.

 

A intenção eterna de Deus se opõe ao inimigo de Deus, Satanás, o qual em sua astúcia, criou uma estratégia para arruinar a humanidade e frustrar o cumprimento do propósito de Deus. O objetivo de Satanás é causar que a humanidade se torne o mesmo que ele em sua vida e natureza malignas. O termo que melhor descreve isso é satanificação—o processo através do qual os seres humanos, criados por Deus de acordo com Sua espécie para Sua gloriosa expressão, são injetados com a vida e natureza de Satanás para se tornarem da espécie de Satanás para sua perversa expressão. A conspiração de Satanás, portanto, é para satanificar a humanidade. O sufixo –ificar significa “fazer”, “formar em”, “investir-se com os atributos de”, “tornar similar a”. Assim, para Satanás, satanificar o homem significa que ele torna o homem o mesmo que ele é em sua vida, natureza e constituição. Por injetar-se no homem e investir o homem com seus atributos, Satanás tornou a humanidade intrinsecamente uma consigo e o mesmo que ele em vida, natureza e constituição e expressão. Isto é o que queremos dizer com satanificação. Para ser exato, Satanás continua a existir objetivamente fora dos seres humanos. O ponto a enfatizar aqui é que por infectar o homem consigo mesmo em sua vida e natureza pecaminosas, Satanás fez crescer uma horrível mutação com resultado da qual os seres humanos foram constituídos com a vida e natureza de Satanás e investiram-se com os atributos de Satanás para se tornarem Satanás.

 

Mas pela graça de Deus há boas novas, e estas boas novas —o evangelho— são que, através da encarnação e através da morte redentora de Cristo, Deus em Cristo condenou o pecado e destruiu o diabo e suas obras, incluindo sua obra de satanificação. Por amor de Seu desejo de ter uma expressão através da criação, regeneração e deificação, Deus veio a realizar a total nulificação da satanificação, e é o objeto deste artigo considerar tanto a satanificação quanto sua nulificação em algum detalhe.

 

                                 Pecado e Satanás

 

Embora os seres humanos tenham sido satanificados e agora tenham Satanás dentro de si, não devemos dizer que o pecado e Satanás sejam uma única e a mesma coisa.  Afirmar que Satanás como pecado habita na carne do homem não significa que ele tem existência objetiva à parte de carne dos seres humanos caídos. Satanás é um ser espiritual com uma existência real, objetiva. De acordo com Ezequiel 28, ele era “o querubim ungido que cobria a Arca” e era perfeito em todos os caminhos até que se achou nele injustiça (vv 14-15). O verso 17 diz, “Teu coração se exaltou por causa de tua beleza; corrompeste tua sabedoria por causa de teu brilho”. Isaías 14: 12-15 apresenta um relato da “Estrela da manhã, filho da alva” aquele que disse, “Exaltarei meu trono”, e “Farei a mim mesmo como o Altíssimo”. Tendo caído de seu estado elevado, aquele que era antes chamado de “querubim ungido” e “Estrela da manhã” se tornou o diabo, Satanás, o maligno (1João 5:19), cujo propósito é danificar a obra de Deus e construir seu próprio reino (Mat 12: 26). Já que Satanás tem existência objetiva definida como um ser pessoal e como tal será lançado no lago de fogo (Ap 20: 10), não deveríamos cometer o erro de afirmar uma identificação absoluta ou não-qualificada do pecado e Satanás ou uma limitação da existência e operação de Satanás na humanidade caída. Não obstante, existe um aspecto subjetivo da operação de Satanás. Como o espírito operante nos filhos da desobediência (Ef 2: 2), os filhos do diabo, ele se manifesta através de pessoas pecaminosas.

 

A disposição de Satanás é pecar (1 Jo 3: 8: Jo 8: 44), e ele injetou a si mesmo como pecado para dentro da humanidade, fazendo com que os seres humanos se tornassem constituídos de pecado (Rm 5: 19). Seria errado considerar que o pecado não passa de uma atitude ou atos de desobediência e deslealdade para com Deus e Sua palavra. Este entendimento limitado da natureza do pecado enfatiza o aspecto objetivo da verdade—pecado como uma atitude ou ato de desobediência—mas negligencia o aspecto subjetivo da verdade—pecado como um poder, lei e princípio, com uma natureza e caráter em si mesmo e que habita no interior de cada um, o qual é a fonte de todos os pecados. Pecamos porque somos pecadores, isto é, aqueles que tem uma constituição de pecado. Adão tornou-se um pecador por cometer um único ato de pecado; os descendentes de Adão cometem atos de pecado porque são pecadores por constituição.

 

Neste ponto pode ser útil considerar a definição de pecado apresentada no Novo Testamento: “Pecado é iniqüidade” (1 João 3: 4). Iniqüidade é a asserção, a manutenção de um comportamento desenfreado, desregrado e dirigido apenas pela vontade própria e egoística em total desconsideração por quaisquer princípios legais. Ser iníquo é rejeitar o princípio do reger de Deus sobre nós e, em lugar disso, fazer nossa própria vontade e viver uma vida em total independência de Deus. A essência do pecado, portanto, não é a mera desobediência ou transgressão; a essência do pecado é a iniqüidade, a flagrante desconsideração da autoridade ou restrição divinas.

 

Outro versículo crucial acerca do pecado é Romanos 3: 23: “Todos pecaram e ficaram aquém da glória de Deus”. À luz deste verso, pecar é errar o alvo, ficar aquém da glória de Deus. A glória de Deus é a expressão de Deus, Deus mesmo expressado. Os seres humanos foram criados por Deus à Sua imagem para expressá-lO para Sua glória. Entretanto, por causa do pecado habitando interiormente e da prática de pecar, as pessoas caídas, em vez de expressar Deus, expressam o ego pecaminoso. Qualquer coisa que dizemos ou fazemos que expresse o ego está aquém da glória de Deus e assim é pecaminosa aos olhos de Deus.

 

É significante que o pecado viola ambos os aspectos do propósito de Deus ao criar a humanidade—imagem e domínio (Gen 1: 26). A imagem está relacionada com a expressão, e o domínio com a autoridade para representação. Deus tencionava que os seres humanos estivessem sob Seu governo direto e, portanto, fossem capazes de representá-lO com Sua autoridade. Entretanto, devido à intrusão do pecado, os seres humanos perseguem, universalmente, uma vida de iniqüidade. Mais ainda, embora Deus tencione que O expressemos para Sua glória, por causa do pecado estamos todos aquém da glória de Deus, expressando o ego em vez de Deus. Se entendermos a natureza e a função do pecado à luz do propósito de Deus em criar a humanidade, compreenderemos que o pecado viola e nega o propósito de Deus de ser expresso através dos, e representado pelos seres humanos criados por Ele à Sua imagem.

 

O diabo, Satanás, é a fonte do pecado (João 8: 44), e, de fato, o pecado é a verdadeira natureza de Satanás. Embora o pecado tenha vindo para o mundo através da desobediência do homem, o pecado não se originou com a humanidade, mas com o diabo que “pecou desde o princípio” (1 João 3:8). O pecador original, o pecador arquetípico, é Satanás. Tanto a origem do pecado como a natureza do pecado estão inextricavelmente ligadas a Satanás.

 

Agora precisamos continuar para ver a distinção, feita nas Escrituras, entre pecado e pecados. Pecado denota o princípio, ou natureza, do pecado, o caráter fundamental do pecado, o qual é a iniqüidade. “Pecados” denota os atos específicos de desobediência a Deus, Sua palavra e Sua vontade. Por causa dos problemas do pecado e dos pecados, em nossa experiência cristã, nós precisamos tanto do perdão dos pecados quanto da libertação do pecado.

 

Em Romanos 5—7 Paulo tem muito a dizer acerca de pecado. Ele nos diz que através de um homem o pecado entrou no mudo (5: 12), que o pecado reina na morte (v. 21), que o pecado não deve ter permissão para reinar em nossos corpos mortais (6: 12), que o pecado não deve dominar sobre nós (v. 14), que o pecado toma ocasião através do mandamento para operar em nós cobiça de todo tipo (7: 8), que o pecado pode reviver, enganar-nos, e matar-nos (vv. 9, 11), que o pecado habita em nós, e que pode fazer muitas coisas contrárias à nossa vontade (vv. 17, 20). Em sua descrição do pecado e das atividades deste dentro de nós, Paulo usa muitos verbos os quais indicam que o pecado funciona em nós virtualmente como uma pessoa com vida e natureza próprias. Não deveríamos descartar as palavras de Paulo como mera figura de linguagem, pois seu falar denota uma terrível realidade que todos devemos enfrentar. Existe algo dentro de nós chamado pecado. Este pecado que habita interiormente procura nos enganar, nos governar e nos matar.

 

A natureza e as atividades do pecado que habita dentro de nós são muito similares, e em certo sentido idênticas, à natureza de Satanás. Baseado no testemunho da Escritura, o qual é confirmado pela experiência humana, temos que dizer que o pecado é a natureza maligna e a corporificação de Satanás. À época da queda do homem, Satanás injetou-se a si mesmo na humanidade como a natureza pecaminosa que nos compele a pecar. Isto significa que através da queda da humanidade, Satanás foi injetado no homem como pecado. Assim, num sentido muito real e definido, o pecado que habita dentro de nós é Satanás. Por um lado, Satanás existe objetivamente como um ser espiritual; por outro, Satanás habita em nós subjetivamente como pecado.

 

           Os aspectos Subjetivo e Objetivo da Queda

 

A fim de ter um entendimento completo da queda da humanidade, precisamos ver ambos os aspectos desta queda—o aspecto objetivo, que envolve a transgressão externa, e o aspecto subjetivo, que envolve a corrupção interior.

 

A queda teve lugar através de um ato de desobediência, uma transgressão externa específica, uma violação da proibição divina (Gen 3: 6). Deus havia posto Adão sob Sua autoridade direta para que ele pudesse aprender obediência, mas Adão pecou contra a vontade e o governo de Deus e assim foi desobediente à autoridade de Deus. Isto foi um ato de rebelião. Através desta desobediência, “o pecado entrou no mundo” (Rom 5: 2), e os seres humanos foram constituídos pecadores (v. 19). A humanidade passou pelo julgamento de Deus, a terra foi posta sob maldição, o homem foi lançado fora do paraíso, e os seres humanos ficaram sujeitos à morte. “Em Adão todos morreram” (1 Cor 15: 22); a morte reina sobre todos (Rom 5: 14, 17).

 

Adão não apenas desobedeceu exteriormente a Deus; ele também recebeu algo para dentro de si subjetivamente. Isto significa que o simples ato de comer o fruto da árvore proibida tinha um componente objetivo e um subjetivo. O comer o fruto foi objetivo; a assimilação do fruto foi subjetiva. Em Romanos 5-7 Paulo cobre ambos os aspectos, explicando como o pecado entrou na humanidade através da transgressão e do ato de desobediência de Adão, e expondo o fato do habitar interior do pecado e a operação da lei do pecado dentro de nós. Contrário a muitos teólogos e mestres da Bíblia de hoje, Paulo era equilibrado em seu entendimento da verdade acerca do pecado. Ele foi esclarecido acerca tanto dos componentes objetivos quanto dos subjetivos da queda da humanidade no pecado.

 

Precisamos ser impressionados pelo fato de que quando o homem comeu da árvore do conhecimento do bem e do mal, um elemento maligno—pecado, a natureza de Satanás, o iníquo, entrou no corpo do homem. A queda, portanto, não envolveu apenas uma transgressão externa, mas também o receber o elemento venenoso do pecado para dentro do corpo humano, o que causa que os seres humanos sejam constituídos pecadores. Como resultado, a natureza satânica foi trabalhada para dentro de nós. Porque fomos constituídos pecadores desse modo, temos a vida e a natureza malignas de Satanás dentro de nós.

 

O pecado que habita dentro de nós é, na realidade, a vida, natureza e disposição de Satanás. Por esta razão, 1 João 3: 10 refere-se aos pecadores como “os filhos do diabo”. Ser um filho do diabo é ter sido gerado pelo diabo, ter a vida e a natureza do diabo, e tornar-se da espécie do diabo, da espécie de Satanás. Em João 8: 44 o Senhor disse, “Vocês são de seu pai, o diabo, e querem fazer os desejos de seu pai”.Uma vez que o diabo é o pai dos pecadores, os seres humanos caídos são os filhos do diabo, gerados por ele para serem sua reprodução, o mesmo que ele em vida, em natureza, em constituição e em expressão. Como os que nasceram do diabo para serem filhos do diabo, as pessoas caídas possuem a vida do diabo, compartilham da natureza do diabo, e como seu pai, vivem em pecado habitualmente. Deve se notar aqui que os seres humanos caídos como filhos do diabo não foram “adotados” por ele para serem seus filhos meramente de forma legal e posicional; na verdade eles foram realmente gerados do maligno para serem o mesmo que seu pai em sua vida e natureza diabólicas. Não devemos ficar chocados, então, de ver pecadores se tornando a manifestação e a expressão prática de Satanás (Mat 16: 23). Mais ainda, as palavras de João o Batista e do Senhor Jesus indicam que pecadores, filhos do diabo, são serpentes (3: 7; 23: 33). Já que Satanás é “a antiga serpente” (Apo 12; 9) e já que os seres humanos caídos são filhos do diabo, tendo o diabo como seu pai, eles também são serpentes. O processo através do qual Satanás tornou os seres humanos criados por Deus em seus filhos, até mesmo em serpentes, é, verdadeiramente um processo de satanificação.

 

Este processo afetou todas as três partes do nosso ser tripartido—espírito, alma e corpo (1 Tes 5: 23). O corpo foi transmutado para se tornar a carne (Rom 7: 18). A alma, o órgão para expressar Deus, foi torcida e mudada para dentro de si-mesma[1] (Mat 16: 23-24). O espírito, o órgão para contatar, receber, conter e assimilar Deus, foi mortificado (Ef 2: 1). O terrível resultado foi que todos os seres humanos tripartidos caídos foram satanificados para se tornarem intimamente envolvidos com uma trindade maligna composta de Satanás, o pecado e a carne. Estes são agora três-em-um—o resultado do complô de Satanás contra a intenção de Deus de trabalhar a Si mesmo para dentro de Seu povo—e eles trabalham juntos, como um, para expandir e edificar o reino maligno de Satanás.

 

                        Evitando mal-entendidos

 

Não negando a personalidade de Satanás. Ensinar que Satanás injetou a si mesmo para dentro da humanidade como pecado com sua natureza maligna é não negar a personalidade de Satanás ou sua existência como um ser pessoal. A Bíblia revela que o pecado que habita interiormente opera nos seres humanos como a personificação virtual de Satanás, funcionando como o próprio diabo em seus esforços para enganar, matar e assenhorear-se de nós. Este aspecto da verdade é certamente compatível com a noção da existência objetiva de Satanás como um ser espiritual, um anjo caído. Como temos nos apercebido, o pecado (a natureza de Satanás) envolve tanto a transgressão objetiva quanto a corrupção subjetiva. De semelhante maneira, Satanás trabalha em nós objetivamente e atua em nós subjetivamente. Se formos absolutamente precisos em nosso estudo das Escrituras acerca deste assunto, e se formos honestos sobre nossa condição espiritual conforme exposta por nossa experiência, compreenderemos que o pecado em nossa carne, o pecado que habita em nós, é a real personificação de Satanás.

 

Não deveríamos dizer sem base adequada que Satanás vem pessoalmente e diretamente para dentro do corpo humano. Nem deveríamos sustentar que seres humanos caídos são possuídos por Satanás no mesmo sentido em que os endemoniados são possuídos por demônios. Antes, sendo fiéis a Deus e à Sua palavra, deveríamos dizer que Satanás entrou como pecado na humanidade por injetar sua vida e natureza nos seres humanos. A descrição de Paulo do pecado que habita interiormente não deveria ser descartada, como se faz habitualmente, como mera linguagem figurada. Em Romanos 5-7 Paulo não está escrevendo poesia—ele está apresentando os fatos da experiência. Um elemento maligno foi injetado em nós, e este elemento, com sua vida, natureza e disposição, opera em nós como se fosse uma pessoa. Quanto mais cedo reconhecermos a seriedade do habitar interior pecado e a relação entre o pecado e Satanás, mais cedo estaremos abertos para nos apropriarmos da provisão de Deus para a libertação do pecado.

 

Não sendo um denegrir do corpo humano criado por Deus. De acordo com o entendimento espiritual dado a Paulo, a lei do pecado opera nos membros do nosso corpo. Isto não está contra a idéia de que conforme criado por Deus o corpo humano era puro e bom (Gen 1: 31) e de que não havia nada de inerentemente mau ou pecaminoso acerca dele. Embora Deus tenha criado o corpo humano de carne, sangue e ossos, Ele não criou o corpo humano tal como ele é agora—um corpo contaminado pelo pecado para se tornar a carne, o corpo corrompido (Rom 7: 18). Deus não poderia criar, e não criou, a carne caída. Entretanto, com a queda da humanidade, a natureza maligna de Satanás entrou no corpo que Deus havia criado puro e bom, e transmudou aquele corpo em uma carne de pecado, o “corpo do pecado”, (Rm 6: 6), e o “corpo de morte” (Rm 7: 24). Por que o corpo criado por Deus foi corrompido e arruinado pelo pecado e transmudado em “a carne”(aspas do tradutor), todos os tipos de paixão estão agora nos membros de nosso corpo (Gal 5: 24; Col 3: 5). Deveria ser evidente, então, que quando Satanás injetou a si mesmo como pecado no homem, o corpo passou por uma mudança de natureza. Inicialmente, na criação, o corpo era puro e bom, mas através do habitar interior do pecado ele foi corrompido e arruinado.

 

O Novo Testamento usa dois termos particulares para descrever o corpo humano caído corrompido pelo pecado: o corpo do pecado e o corpo da morte. O corpo do pecado é cheio com o elemento do pecado e excedentemente ativo em praticar pecado, pois existe um poder no corpo caído que o energiza para o pecado. Ao mesmo tempo, o corpo humano é da morte, e como tal é extremamente fraco em fazer as coisas de Deus. Com respeito à palavra de Deus e à vontade de Deus, o corpo da morte é passivo e extremamente fraco, mas no cometer pecado o corpo do pecado é muito ativo. No pecar contra Deus, o corpo caído é um corpo do pecado; no obedecer à palavra de Deus, o corpo caído é um corpo da morte. O fato de que o corpo humano criado por Deus se tornou tanto o corpo do pecado como o corpo de morte prova que o corpo criado por Deus sofreu uma mudança drástica.

 

Isto não tem nada a ver com gnosticismo. A noção gnóstica do corpo humano é que ele (como a matéria em si mesma) é inerentemente mau. Para o gnóstico (mas não para o cristão) o corpo humano, sendo material, é intrinsecamente mau, e a salvação consiste no espírito obter emancipação do corpo. Condenamos este conceito pernicioso, e repudiamos o ensino não-bíblico de que o corpo humano seja inerentemente mau. Na criação, o corpo humano criado por Deus é bom, mas na queda o corpo humano, tendo sido corrompido através da satanificação, é carne de pecado.

 

Mostramos que o propósito de Deus em Sua criação da humanidade era que os seres humanos tripartidos nascessem de Deus, fossem regenerados por Deus, para se tornarem os filhos de Deus (não mais somente criaturas de Deus), possuindo a vida e a natureza de Deus para a expressão de Deus. Esta é a intenção eterna de Deus. Entretanto, em sua sutileza e artimanha, Satanás, o pecador, concebeu um esquema para arruinar os vasos humanos criados por Deus. Pelo seduzir os seres humanos para o pecado, Satanás injetou sua vida e natureza malignas nos seres humanos, corrompendo-os e fazendo-os Satanás em vida, natureza, constituição, função e expressão. Isto é satanificação, o complô de Satanás. Enquanto que o objetivo de Deus na criação é para a regeneração com vistas a uma expressão divina, gloriosa, o objetivo de Satanás é a satanificação para uma expressão perversa, diabólica. Os seres humanos criados por Deus para se tornarem Seus filhos pela regeneração se tornaram os filhos do diabo através da satanificação. Esta é a lamentável condição de toda a raça humana, mas não é a última palavra. Em Sua multiforme sabedoria, Deus tem um caminho, através da Sua redenção, para destruir as obras do diabo e cumprir Seu propósito. Em Cristo algo maravilhoso ocorreu—a nulificação da satanificação, a qual está relacionada com a encarnação de Cristo, o ministério de Cristo, a crucificação de Cristo, e o espírito de Cristo.

 

A encarnação de Cristo—o pré-requisito para a nulificação da satanificação

 

Através da encarnação de Cristo, Deus deu um grande passo para destruir, anular e reduzir a nada o diabo e suas obras (Heb 2: 14). Uma maravilhosa declaração acerca disto é encontrada em 1 João 3: 8. a primeira parte do verso diz, “O que pratica o pecado é do diabo, porque o diabo tem pecado desde o princípio”. No interior do diabo há algo iníquo que é singularmente dele mesmo e que causou que ele se tornasse a fonte do pecado (João 8: 44), e por causa desta coisa iníqua, possuída apenas por ele, ele “pecou desde o princípio”, isto é, desde o momento em que ele começou a rejeitar o governo de Deus, rebelar-se contra Ele, e exaltar seu trono. “O que pratica o pecado é do[2] diabo” como sua fonte (indicado por do, significando “proveniente do”). O diabo, que pecou desde o princípio, gera sua própria espécie de filhos que se juntam a ele e são um com ele em praticar o pecado (1 João 3: 10). Eles são de seu pai, o diabo, e querem cumprir seus desejos. Mas na parte restante de 3: 8 João continua a dizer. “Para este propósito o Filho de Deus foi manifestado, para que Ele pudesse destruir as obras do diabo”. Para as obras do diabo serem destruídas significa que elas são dissolvidas, desfeitas, trazidas a ser nada. Cristo trouxe a nada tanto o próprio diabo quanto suas obras. Para este propósito Ele foi manifestado através de Sua encarnação.

 

A encarnação de Cristo significa que Deus Se tornou carne. Central para nosso entendimento da encarnação de Cristo é a revelação divina de João 1: 14, Romanos 8: 3, e hebreus 2: 14. João 1: 14 diz, ”A Palavra tornou-se carne”. No Novo Testamento, carne tem três significados principais: a carne do corpo humano, o corpo caído e corrompido, e a humanidade considerada em sua totalidade. Por um lado, a Bíblia diz que a Palavra Se tornou carne e até mesmo que Deus Se manifestou na carne (1 Tim 3: 16); por outro lado, a Bíblia revela que, como carne, os seres humanos são caídos e pecadores. João 1: 14 certamente não significa que a Palavra, o verdadeiro Deus, Se tornou um ser humano caído. Sabemos de 2 Cor 5: 21 e Hebreus 4: 15 que Cristo não conheceu pecado e não tinha pecado.

 

Se quisermos ter o entendimento adequado de João 1: 14, precisamos considerar Romanos 8: 13, o qual diz que Deus enviou Seu Filho “na semelhança da carne de pecado”. Precisamos ficar profundamente impressionados com o fato de que aqui Paulo não diz que Deus enviou Seu Filho na carne de pecado; ao contrário, ele diz que Deus enviou Seu Filho no s[3] da carne de pecado. Muito tempo antes de Cristo ser encarnado como homem, a carne humana tinha se tornado a carne de pecado, tendo o elemento satânico do pecado. Quando a Palavra Se tornou carne, Ele Se tornou carne no sentido de vir na semelhança, na aparência da carne de pecado, mas não no sentido de vir na realidade da carne de pecado. Ele Se tornou carne, mas nessa carne não havia nada de pecado, porque Ele não possuía a natureza pecaminosa da carne de pecado. Ele vestiu a carne (a natureza humana), mas não a carne de pecado. Portanto, quando Cristo Se tornou carne, Ele estava na semelhança da carne do pecado. Sua carne era a mesma que a carne de pecado apenas em semelhança, não em natureza. Em aparência Ele estava na forma de um ser humano caído, mas em realidade não havia nada de natureza caída nEle. Foi porque Cristo foi concebido do Espírito Santo e nasceu de uma virgem que Ele pôde Se tornar carne sem ter o elemento de pecado que está na carne dos seres humanos caídos.

 

Hebreus 2: 14 fala disto: “Já que, portanto, os filhos compartilharam o sangue e a carne, Ele também da mesma maneira compartilhou do mesmo, para que através da morte Ele pudesse destruir aquele que detém o poder da morte, isto é, o diabo”. Isto indica que nosso Salvador não é diferente de nós em natureza, pois Ele compartilhou do mesmo sangue e carne, tornando-Se um ser humano mas não um ser humano caído. Cristo Se tornou exatamente o que nós somos, exceto pelo pecado. A Palavra Se tornou carne, e Jesus Cristo veio em carne para ser um conosco.

 

Louvamos ao Senhor por Sua encarnação! A fim de lidar com o pecado na carne e para nulificar o diabo e sua obra satanificadora, Cristo, a Palavra, o Filho, tornou-Se carne. Embora essa carne partilhasse todas as propriedades da natureza humana criada, ele não possuía o mal, a natureza profanadora do pecado. A encarnação de Cristo—Seu tornar-Se carne à semelhança da carne de pecado— foi um pré-requisito para a nulificação da  satanificação.

 

                                              O ministério de Cristo—o começo da nulificação da satanificação

 

O ministério de Cristo na terra foi o começo da nulificação da satanificação. Antes de Ele começar Seu ministério terreno, Ele foi aprovado pelo Pai e testado pelo diabo (Mat 3: 13 – 4: 11). Embora Cristo seja o Homem-Deus, possuindo tanto divindade quanto humanidade, em Seu encontro com satanás Ele Se manteve na posição de homem (Mat 4: 4). Como Satanás é uma criatura, Deus o Criador não Se rebaixará para lidar diretamente com uma criatura. Em vez disso, uma criatura—o homem—deve tratar com essa criatura rebelde, exercendo o domínio de Deus e trazendo o reino de Deus à terra. Enquanto o primeiro homem, Adão, falhou miseravelmente neste assunto, o segundo homem, Cristo, foi totalmente vitorioso. NEle o governante deste mundo não tinha nada, isto é, nenhuma base ou oportunidade (João 14: 30). Em grande parte, o ministério do Senhor na terra foi um guerrear contra Satanás e um conflito entre o reino de Deus e o reino de Satanás. De varias maneiras Ele começou a desfazer as obras do diabo: perdoando pecados, curando doenças e expulsando demônios. Ele disse: “Se eu, pelo Espírito de Deus, expulso demônios, então o reino de Deus é chegado a vós” (Mat 12: 28). Aqui vemos o conflito entre dois reinos—o reino de Satanás (v. 26) e o reino de Deus. Em Seu ministério na terra, Cristo, Deus encarnado, era o reino de Deus (Luc 17: 20-21), e onde quer que Ele estivesse, Satanás não podia estar, e seu reino sofria séria perda.

 

                           A crucifixão de Cristo—a Condenação do Pecado para a Nulificação da Satanificação

 

O desfazer das obras de Satanás que começou no ministério do Senhor culminou com Sua crucifixão. Em Sua morte por nossa redenção, Cristo foi o cordeiro de Deus (João 1: 29), um homem na carne (Rom 8: 3), o ultimo Adão (1 Co 15: 45), uma criatura (Col 1: 15), uma serpente quanto à forma (João 3: 14), e nossa paz e Pacificador (Ef 2: 14-16). Através da crucifixão de Cristo, Deus resolveu não apenas o problema dos pecados, mas também o problema do pecado na carne. Como Romanos 8: 3 revela, “Deus, enviando Seu Filho na semelhança da carne do pecado e no que diz respeito ao pecado, condenou o pecado na carne”. Temos visto que o Filho de Deus foi manifestado para que Ele pudesse destruir, anular, desfazer as obras do diabo. Este desfazer completo e total teve lugar por meio da morte de Cristo sobre a cruz, através da qual Ele condenou o pecado, o qual tinha sido iniciado por Satanás, e destruiu a natureza pecaminosa do diabo. O pecado foi condenado e o diabo destruído (Heb 2: 14). Podemos dizer que por Sua morte substitutiva na cruz por nossa redenção, Cristo realizou um exorcismo de proporções cósmicas: O governante deste mundo foi expulso. Isto foi, nada menos do que a completa nulificação da satanificação.

 

Embora todos os genuínos cristãos acreditem que Cristo morreu na cruz por nossos pecados (1 Cor 15: 3; 1 Ped 2: 24), tendo oferecido um sacrifício pelos pecados (Heb 10: 12), não muitos conhecem o significado da crucificação em relação ao pecado e Satanás. A cruz tratou não somente com nossos pecados, nossas muitas transgressões e atos de desobediência, mas também com o pecado, com o princípio e poder do pecado que habita em nossa carne. Ao lidar com o pecado, Cristo não somente carregou nossos pecados em Seu corpo, mas também foi feito pecado por nós (2 Co 5: 21). Por que Deus fez Cristo pecado em nosso lugar, quando Ele estava na cruz Ele era o pecado. À vista de Deus, Ele foi condenado e crucificado como pecado, e por que Ele era nosso Substituto, Deus O olhou como se Ele fosse o próprio pecado. Isto significa que quando Cristo morreu na cruz, Ele foi crucificado não apenas como nosso Redentor, mas também como pecado. Através da encarnação Deus enviou Seu filho na semelhança da carne do pecado e no que diz respeito à carne do pecado. Então, através da morte redentora de Cristo, temos não apenas o perdão dos pecados, mas também a libertação do poder do pecado que habita interiormente.

 

A veracidade de Romanos 8: 3 é confirmada e ilustrada pela verdade em João 3: 14: “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim deve o Filho do Homem ser levantado”. A serpente de bronze levantada no deserto por Moisés em uma estaca foi um tipo de Cristo vindo na semelhança da carne de pecado (Num 21: 4-9). A serpente de bronze não era uma serpente com veneno; pelo contrário, era uma serpente na forma, mas não na natureza, uma serpente de bronze feita à semelhança de uma serpente real. Para o propósito da substituição (em tipologia), era suficiente que ela fosse feita na forma e semelhança de uma serpente. Em João 3: 14 o Senhor Jesus aplicou este tipo a Si mesmo, indicando por meio disso que Ele Se tornaria o cumprimento deste tipo por ser levantado na cruz e por ser feito pecado por nós. Cristo morreu como cumprimento do tipo da serpente de bronze.

 

Através da satanificação, os seres humanos caídos se tornaram serpentes, com um ser corrupto sendo aturado com a natureza serpentil e com o veneno de Satanás. Em Sua encarnação Cristo veio na semelhança da carne do pecado, tornando-Se o mesmo que os seres humanos pecaminosos em aparência sem ter a natureza pecaminosa dentro dEle. Como Um Tal, Ele morreu por nós para condenar o pecado na carne. Enquanto Ele estava na cruz, Deus tratou com Ele, por amor de nós, como se Ele fosse a corporificação do pecado. À vista de Deus, Cristo estava na forma de uma serpente por que Ele estava na semelhança da carne do pecado. Louvamos ao Senhor porque Ele morreu como nosso Substituto na forma de uma serpente para nulificar a natureza serpentina em nós!

 

A morte de Cristo na cruz também foi o meio pelo qual Deus destruiu o diabo. Quando Cristo foi levantado na forma de uma serpente e na semelhança da carne do pecado, Satanás foi destruído e expulso.  Como João 12: 31-32 demonstra, o expulsar do príncipe deste mundo está conectado com a morte de Cristo na cruz. Através da encarnação o Senhor Jesus vestiu a semelhança da carne do pecado, e então Ele levou esta carne até a cruz e a crucificou. Deste modo, Satanás, que havia se injetado para dentro da humanidade como pecado, foi destruído, anulado, tornado em nada, como Hebreus 2: 14 testifica. Cristo partilhou do sangue e da carne com o propósito de destruir o diabo. Isto indica claramente que, à parte de encarnação, na qual Cristo tomou sobre Si a semelhança da carne do pecado, e da crucifixão, na qual Ele tratou com o pecado, não teria havido maneira de Deus destruir Satanás ou nulificar a satanificação. A profecia em Gen 3: 15 foi cumprida: a semente da mulher—Jesus, Filho de Deus e Filho do Homem—esmagou a cabeça da serpente. O pecado foi condenado. Satanás foi destruído. A satanificação foi nulificada.

 

Isto nos deveria fazer apreciar mais profundamente João 3: 16; ‘Pois Deus tanto amou o mundo que deu Seu Filho Unigênito, para que todo aquele que crê para dentro[4] dEle não pereça, mas tenha a vida eterna”. Mundo aqui denota a totalidade dos seres humanos caídos e pecaminosos que constituem o mundo como um sistema e que têm sido satanificados para se tornarem serpentes, o mesmo que o diabo, a serpente, em vida e em natureza. O Filho Unigênito de Deus, nosso Senhor Jesus, veio na semelhança da carne do pecado e morreu na forma da serpente, cumprindo o tipo da serpente de bronze. Para Deus, amar tanto o mundo “de maneira a dar Seu Filho Unigênito” não significa apenas que Cristo morreu por nossos pecados; também significa que Deus deu Seu Filho no sentido de que Ele O enviou na semelhança da carne do pecado, O fez pecado e desistiu dEle para morrer na cruz na forma da serpente para que Deus pudesse condenar o pecado e destruir Satanás.

 

                                      O Espírito de Cristo—a Aplicação da Nulificação da Satanificação

 

Primeira de Pedro 3: 18 e 19 dizem, ”Cristo também sofreu uma vez, o Justo por causa dos injustos, para que pudesse trazer-vos a Deus, por um lado sendo levado à morte na carne, mas por outro estando vivo nO Espírito; nO qual também Ele foi e proclamou aos espíritos em prisão.” Enquanto Cristo estava sendo levado à morte na carne, Ele estava sendo vivificado nO Espírito, nO Espírito como a essência de Sua divindade. Neste Espírito Ele proclamou, provavelmente no abismo (Rom 10: 7), a certos anjos rebeldes Sua vitória sobre Satanás e seu complô para estragar a economia de Deus. Depois disso, tendo obtido as chaves da morte e do Hades (Apo 1: 18), Ele foi libertado dos grilhões da morte (Atos 2: 24) e veio, na glória de Sua ressurreição (Luc 24: 26; Atos 3: 13).

 

Cristo foi ressuscitado tanto fisicamente quanto espiritualmente. Fisicamente, Ele foi ressuscitado num corpo de carne e osso (Luc 24: 39), o qual é um misterioso corpo de glória (Fil 3: 21). Como tal, foi exaltado à mão direita de Deus para executar, como o Ungido de Deus, a administração de Deus no universo. Espiritualmente, em ressurreição Cristo Se tornou O Espírito-que-dá-vida (1 Cor 15: 45), o Cristo pneumático. Como Tal Ele habita dentro de nós para viver em nós e fazer real para nós tudo o que Ele realizou, obteve e atingiu em Sua encarnação, viver humano, crucifixão, ressurreição e ascensão. Agora, a nulificação da satanificação, operada através da encarnação, viver humano e crucifixão de Cristo é aplicada a nós pelo Espírito na esfera da ressurreição e ascensão de Cristo (Rom 8: 9).

 

O que foi cumprido através da crucifixão de Cristo não deveria permanecer para nós como uma mera doutrina objetiva. Se a verdade acerca da nulificação da satanificação é para afetar nosso viver diário, ela deve ser tornada real para nós numa maneira experiencial pelo Espírito de Cristo. Foi Cristo que lidou com Satanás, mas é o Espírito da realidade que convence o mundo do juízo, porque o príncipe deste mundo já foi julgado (João 16: 8-11). Semelhantemente, é um fato que nosso velho homem já foi crucificado com Cristo (Rom 6: 6), mas é o Espírito que faz a morte de Cristo real, aplicável e eficaz para nós em nossa experiência. Então, para experienciar a realidade do lidar de Cristo com o pecado e Satanás, precisamos da pessoa e da obra do Espírito.

 

Entretanto, se somos crentes carnais, que continuam a viver na carne e que andam na carne, em nosso viver diário sofreremos a praga do pecado e de Satanás como se eles não tivessem sido tratados através da morte de Cristo na cruz. É possível ter um entendimento doutrinário ou teológico da nulificação da satanificação—da condenação do pecado na carne e da destruição do diabo e de suas obras—e ainda assim ser derrotado pelo pecado e Satanás em nosso viver diário simplesmente porque não vivemos pelo Espírito nem andamos pelo espírito (Gal 5: 16, 24-25; Rom 8: 4, 13). A verdade objetiva acerca da nulificação da satanificação está baseada na obra acabada de Cristo na cruz, através da qual o pecado na carne foi condenado e o diabo, a fonte do pecado, foi destruído. A aplicação desta verdade e sua realidade subjetiva em nossa experiência dependem do Espírito e do nosso viver e andar em unidade com o Senhor em espírito (1 Cor 16: 17). Na medida em que vivemos no espírito mesclado—o espírito humano regenerado mesclado com o Espírito da realidade—, somos libertados dos efeitos da satanificação, e somos livres em Cristo para cumprir o propósito de Deus na criação, regeneração, e deificação para Sua expressão corporativa e eterna.



[1] No original grego é eautón, pronome reflexivo, terceira pessoa do singular, no caso acusativo.(N. do T.).

[2] Itálico do tradutor para facilitar a identificação com o próximo itálico, que é do autor, e por causa das diferenças entre o idioma original e o português.

[3] Negrito do tradutor.

[4] A preposição grega normalmente como em  nas traduções em português, crê nEle (em + ele) , na realidade significa em direção ao interior de.( N. do T.)