UM POUCO DE HISTÓRIA DA IGREJA PRIMITIVA

Graças a Deus que Cristo veio à terra. Ele nasceu, viveu, morreu e ressuscitou. Apesar de todos os Seus feitos Ele não deixou aqui uma grande obra com milhares de seguidores, mas, sim, um pequeno grupo de cento e vinte pessoas orando no andar superior de uma casa. Todavia, quando o senhor Jesus morreu e ressuscitou, Ele produziu algo muito importante, Ele gerou a igreja por meio da Sua vida. Apesar de ser uma pequena semente, era uma semente poderosa porque foi gerada pela morte e ressurreição de Cristo. A primeira igreja que existiu foi a igreja em Jerusalém. Ali Deus tinha a Sua habitação na terra, e podia expressar-se num Corpo, e começou a exercer domínio nesta terra. E a igreja, pouco a pouco, expandiu-se pelo testemunho dos apóstolos e dos discípulos. A igreja prosperava e o Senhor acrescentava dia a dia os que iam sendo salvos. Ela contava com a simpatia do povo e a benção do Senhor estava com ela (At 2:42-47).

 

                                                          A RELIGIÃO JUDAICA

Porém Satanás, sorrateiramente, já no século 1, infiltrou certos elementos nocivos para causar degradação na igreja. Basicamente são três os elementos que causaram dano à unidade da igreja primitiva: a religião judaica, a filosofia grega e a organização humana. A religião judaica causou muitos males à igreja, como tão bem vemos descritos na Epístola de Paulo aos gálatas. A partir do capítulo 1 de Gálatas vemos que eles receberam o Espírito pela pregação da fé em Cristo, todavia foram pouco a pouco desviados para as obras da lei (Gl 3:1-5). Alguns incentivavam as práticas religiosas judaicas como a circuncisão, guardar o sábado, as dietas e as ordenanças. Enfim, de uma maneira “religiosamente boa”, essas práticas foram introduzidas na igreja iniciando um processo de degradação. Isso tudo levou Paulo a escrever aos gálatas a fim de abrir-lhes os olhos, lembrando-lhes que antes de crer em Jesus, ele era um religioso zeloso das tradições de seus pais e perseguidor da igreja (1:13,14) até chegar a Gálatas 6:15: “Pois nem a circuncisão é coisa alguma, nem a incircuncisão, mas o ser nova criatura”. Em Efésios 2:14,15 Paulo diz que Cristo derrubou a parede da separação e “aboliu na sua carne a lei dos mandamentos na forma de ordenanças”. Na igreja não precisamos de ordenanças, pois Cristo é tudo em todos.

 

                                                            A FILOSOFIA GREGA

A influência da filosofia grega entre os cristãos também foi muito prejudicial, a ponto de tal mistura criar o gnosticismo. Os gnósticos pregam que toda matéria é essencialmente má, portanto, Cristo não pode ter vindo em forma de carne sem pecado. Eles não crêem na encarnação de Cristo nem em Sua redenção. A influência negativa  dos gnósticos obrigou João a escrever suas três epístolas, especialmente na primeira epístola, João afirma que Jesus Cristo veio em carne, e que o espírito que diz que Jesus não veio em carne não é de Deus (4:2,3).

 

                                                         A ORGANIZAÇÃO HUMANA

O terceiro elemento de degradação na igreja foi a organização humana, que se iniciou no século 2. Como a igreja já estava “contaminada” pela religião judaica e pela filosofia grega, surgiram alguns defensores da genuína igreja. Isso foi muito bom, porque ajudou a preservar alguns da influência negativa. Entre tais defensores da igreja, Inácio foi dos mais importantes e respeitados. Todavia, cometeu um erro que com o tempo se tornou um grande erro. Ele afirmava que bispo era uma posição superior a presbítero, que os bispos deveriam supervisionar os presbíteros. Isso gerou uma ordem Hierárquica nas igrejas, pois fez com que várias igrejas numa região fossem supervisionadas por um bispo. Daí até chegar ao sistema papal foi apenas uma questão de tempo. Não apenas o clero e o laicato foram demarcados, como também o próprio clero foi dividido em classes. Não encontramos nada disso na Bíblia. O que podemos encontrar é que Paulo em Atos 20 chama os presbíteros de bispos (vs.17,28). Portanto, bispos são presbíteros e presbíteros são bispos. Por que então a diferenças de palavras? A palavra presbítero ou ancião refere-se à uma pessoa que seja mais crescida e madura. Não necessariamente em idade física, mas em maturidade espiritual. A palavra bispo em grego epíscopo, formada de epi (sobre ou super) + skopos (visor, o que vê), significa supervisor. Assim, bispo refere-se a função da pessoa que é presbítero, função esta que é supervisionar a igreja. Em resumo, esse erro de Inácio contribuiu para a introdução da organização humana, que foi um fator preponderante para a degradação da igreja.

 

                                                             A DEGRADAÇÃO

No século 2 já se falava em Igreja Católica (a igreja geral universal) e esta tornou-se cada vez mais mundana, misturando-se com as coisas do mundo e com o paganismo, a tal ponto que no século 6 o sistema papal já estava totalmente implantado. Nesta época, devido a diferenças de crenças e de opiniões, havia três divisões dominantes: no Ocidente, a Igreja Católica Romana; no Oriente, a Igreja Ortodoxa Grega, e na Pérsia, os Nestorianos. Além dessas três correntes maiores, havia muitos grupos livres. Os grupos livres, longe de serem algo do nosso tempo, surgiram nos primeiros séculos como uma reação contra o mundanismo da Igreja Católica. Seus integrantes abandonaram o catolicismo e buscaram uma vida cristã mais pura --- assim surgiram os chamados Puritanos, que existem até hoje. Nesta fase  da história da igreja podemos descobrir a existência de várias divisões como prova do descontentamento provocado pelas três fortes correntes cristãs da época.

A partir daí a igreja viveu a época mais caótica e estéril de sua história: a era das Trevas, ou seja, o período em que o conhecimento da Bíblia era permitido somente ao clero e a absolutamente mais ninguém. Durante séculos as pessoas comuns, os leigos, como eram chamados, foram impedidos de se chegarem à Palavra de Deus, que foi manipulada segundo os interesses político-sócio-econômicos de uma organização humana, a Igreja Católica Romana, que detinha em suas mãos o poder religioso.

 

                                                              A REFORMA

Foi quando no século 16, Deus levantou na Alemanha Martinho Lutero. Ele fazia parte do clero católico, porém, revoltado com o cristianismo vigente, opôs-se à Igreja Católica, pregando à viva voz a verdade sobre “a justificação pela fé”, isto é, os homens são salvos e justificados pela fé e não pelas obras, Esse foi o primeiro e o decisivo grande passo da restauração da igreja. Consequentemente, muitos cristãos seguiram Lutero para juntos formar uma nova corrente cristã, o protestantismo. A Bíblia foi aberta a todos os cristãos e, por ser o primeiro livro a ser impresso, suas verdades tornaram-se acessíveis a muitos. Como louvamos a Deus, porque Ele jamais abandona Seus filhos! Se durante tantos séculos a Palavra de Deus esteve oculta, os homens foram cegados com respeito à salvação e ficaram sem nenhuma função por causa do sistema clerical, o Senhor em determinado tempo veio restaurar a Sua igreja, começando com Lutero. Hoje temos o privilégio de até mesmo “comer” a Palavra de Deus, de funcionar espiritualmente, de falar por Deus, de falar Deus para dentro das pessoas. Olhando para trás, para a história da igreja, considerando as dificuldades de tantos cristãos genuínos, precisamos constantemente agradecer ao Senhor e servi-Lo com mais fervor ainda.

O ponto fraco de Martinho Lutero foi justamente em relação aos versículos de Deuteronômio 12, sobre o único lugar escolhido por Deus, praticado pela igreja primitiva no século 1. A igreja primitiva era uma só e deve continuar sendo apenas uma. Embora tenha dois aspectos a igreja é uma: por um lado, ela é universal, indicando que é formada pela totalidade dos santos do passado, presente e futuro; e por outro lado, a igreja é local, isto é, ela tem uma manifestação única, concreta e presente em cada cidade. Assim como a lua. A lua da terra é única, mas pode ser vista em cada cidade do planeta. Cada cidade tem uma lua diferente? Não, é a mesma lua universal que se manifesta em cada cidade. No tempo atual podemos ver a igreja universal expressada, manifestada praticamente em cada cidade. A igreja é visível e pode ser praticada em cada cidade desta terra. Aleluia! Que visão celestial! Quantas igrejas havia em Jerusalém? Talvez ali houvesse vinte mil ou quarenta mil pessoas salvas, mas todas elas eram uma só igreja ---- a igreja em Jerusalém. Muitas pessoas têm a mente condicionada  pelo conceito humano, não divino nem bíblico, de que a igreja é um templo material de tijolos ou de madeira. A igreja numa cidade é composta de todas as pessoas que foram regeneradas pelo Espírito Santo e que vivem nela. O limite da igreja é o tamanho da cidade. Se todas as pessoas de uma cidade forem salvas, ainda naquela cidade haverá apenas uma única igreja. Deus só pode ser expressado na unidade, por isso é que toda a obra de Satanás consiste em dividir. Quando há divisão não há expressão de Deus, razão pela qual é tão importante permanecermos na base da unidade.

Martinho Lutero não viu isso. Ele lutou pela justificação pela fé, empenhou-se para que a Bíblia chegasse às mãos das pessoas, mas aliou-se à política unindo-se ao governo da Alemanha. Com a força do governo alemão ele libertou-se do domínio do papa, e sob a influência de Lutero, a Alemanha também libertou-se do domínio político, econômico e social da Igreja Católica Romana. Dessa cooperação mútua surgiu na Alemanha a primeira igreja estatal: a Igreja Luterana, a igreja nacional da Alemanha. Na Dinamarca, na Noruega e na Suécia também encontramos as igrejas estatais luteranas. Na Inglaterra a igreja estatal é a Anglicana e a chefe, a cabeça da igreja, imaginem só, é a rainha! Quanta confusão por falta de visão! Embora a restauração tenha dado um passo grande e irreversível com Lutero, vemos que foi um passo que gerou novas conseqüências prejudiciais ao progresso da restauração: surgiram novas divisões.

 

                                                                 SÉCULO 17

No século 17 as igrejas estatais imersas em formalismos e organizações humanas encontravam-se numa situação morta, sem  vida. Mas o Senhor, como reação a toda essa morte visível das igrejas da Reforma, levantou os chamados “místicos”, que eram um grupo de irmãos totalmente voltados para a vida interior, para uma profunda vida de comunhão íntima com Deus. Esses irmãos perceberam uma realidade maravilhosa: vida é Deus no Seu Filho, pelo Seu Espírito que em nós habita. Hoje podemos desfrutar essa experiência restaurada da vida interior graças aos irmãos “místicos", entre os quais se destacam Madame Guyon, Padre Fenélon e Irmão Lawrence. Mas mesmo eles, com tantas experiências ricas, ainda permaneceram presos no catolicismo, aos ídolos, à imagem de Maria. E por causa das experiências desses irmãos, muitos outros, conhecidos como puritanos, deixaram as várias instituições religiosas estatais e uniram-se par formar as igrejas particulares e diversos movimentos livres. Esses puritanos começaram a ter revelação da Palavra de Deus e viram muitos dos erros praticados pelas igrejas estatais. Reagiram a isso saindo de onde estavam para ter um novo começo baseado no que viam. Por exemplo, alguns viram que ser batizado não é simplesmente receber gotas de água ao nascer, mas é uma profunda questão espiritual, que acontece tão logo uma pessoa crê no Senhor Jesus. Logo ao crer deve ocorrer o batismo por imersão na água, como um testemunho público de uma realidade espiritual que ocorrera com ela. Infelizmente, essa preciosa verdade foi usada como base para se fundar outra divisão da igreja. Outros irmãos viram, à luz da pura Bíblia, que são os presbíteros que admistravam a igreja. Entretanto, usando-o como base para acolhimento dos irmãos gerou mais uma divisão. Havia também os que seguiram os ensinamentos de determinados homens usados por Deus, os quais receberam muita revelação na Bíblia. E isso serviu de base para fundar outros grupos cristãos. Assim surgiram as igrejas particulares, além de muitos grupos livres. Apesar de muitas verdades bíblicas serem restauradas, mais e mais divisões surgiram.

A que ponto chega a sutileza do inimigo! Tantas verdades bíblicas estavam sendo desvendadas e, no entanto, a igreja estava sendo cada vez mais dividida! Onde estava a falha? Em não atentar para o ponto central --- o lugar escolhido por Deus é o testemunho da unidade que expressa Deus na terra. Eis a importância de ler Deuteronômio 12 e perceber que Deus continua desejando reunir Seu povo em um único lugar escolhido por Ele. Quem não vê ou não atenta para isso, será continuamente enganado por Satanás. Por isso insistimos mais uma vez: precisamos enxergar o ponto central de Deuteronômio 12 --- Deus deseja a unidade do Seu povo. A unidade do Corpo de Cristo é essencial para o testemunho de Deus aqui na terra. Mas ninguém via isso, defendendo verdades espirituais sem atentar para a unidade prática do Corpo de Cristo.

 

                                                                 SÉCULO 18 E 19

Na Moravia, no século 18, surgiram os “Irmãos Morávios” liderados pelo Conde Zinzendorf. Eram irmãos que, perseguidos por todo tipo de “igrejas”, por fim foram acolhidos no condado da Moravia sob a proteção do irmão Zinzendorf. O conde propôs que, como cada um ali procedia de lugares e de grupos diferentes, então, para que a unidade entre eles fosse preservada, todos deveriam abandonar suas diferenças, esquecer os antecedentes e começar uma nova vida simplesmente como irmãos. E foi assim que os “Irmãos Morávios” tiveram alguma prática do viver genuíno da unidade da igreja, ainda que de duração limitada.

De 1825 a 1828, foram levantados os “Irmãos Unidos”, que se reuniam na Inglaterra liderados por John Nelson Darby. Esses irmãos realmente deram um significativo passo além: abandonaram as denominações, tratavam-se uns aos outros simplesmente de irmãos e o amor fraternal entre eles era muito intenso. Eles viram o erro das denominações e viviam em unidade. Porém, pelo fato de também não enxergarem a base da unidade, posteriormente, fracassaram e perderam a unidade. O testemunho deles que era tão bom durou muito pouco. A decadência começou com divergências doutrinárias entre Darby e B. Newton, pois um defendia o arrebatamento pré-tribulação e o outro o pós-tribulação. Como resultado, eles se dividiram. Essa foi a primeira divisão ocorrida entre os Irmãos Unidos. A segunda foi decorrente de uma polêmica entre Darby e George Muller. Darby considerava como pecado as denominações e pecadores os que dela participavam, e defendia que não deveriam andar com pecadores, e, sim, deveriam manter-se fechados a eles. Muller era mais aberto e achava que era preciso aproximar-se dos que estavam nas denominações. Disto surgiram os Irmãos exclusivos ou fechados e os Irmãos inclusivos ou abertos. Noventa anos após o surgimento dos Irmãos Unidos Já havia mais de cem divisões. Diversas verdades que hoje desfrutamos na vida da igreja, foram-nos restauradas por meio dos Irmãos Unidos; podemos dizer que estamos apoiados sobre seus ombros. Entretanto esses irmãos também não viram a base da unidade do Corpo de Cristo, o que permitiu a Satanás introduzir o elemento da divisão, destruindo em pouco tempo o forte testemunho desses irmãos.

 

                                       SÉCULO 20 --- A RESTAURAÇÃO DA BASE DA UNIDADE

Graças a Deus porque nascemos no século 20. Foi justamente neste século que a verdade sobre a base da unidade do Corpo de Cristo foi restaurada, e hoje podemos viver nesta base adequada.

No início deste século Deus foi buscar alguém num lugar bastante árido em relação ao cristianismo. Foi na China --- uma terra de idólatras, de budistas, de seguidores dos altos padrões éticos e morais de Confúcio --- que Deus chamou um servo Seu para dar-lhe a visão central e governante da base da unidade do Corpo de Cristo . Isso talvez por ser a China uma terra virgem, despida de conceitos religiosos do cristianismo. Deus sabia que seria difícil para alguém que já nascesse numa atmosfera impregnada de tradições e conceitos religiosos receber uma visão límpida e transparente da Sua vontade eterna. Assim o Senhor concedeu revelação ao jovem chinês Watchman Nee.

 A conversão de Watchman Nee começou com uma jovem que lhe pregou o evangelho --- Dora Yu. Dora Yu pertencia a uma família chinesa riquíssima, que resolveu enviar a filha para estudar medicina na Inglaterra. A caminho da Inglaterra, durante a longa viagem de navio, essa jovem recebeu um chamamento de Senhor para que voltasse à China e lá pregasse o evangelho. Ela, então, obediente, procurou o capitão do navio e informou-o de que desceria no próximo porto e voltaria à China, pois recebera um chamamento de Deus. E Dora voltou sendo recebida com grande descontentamento pela família, que muito se opôs à sua decisão. Mas essa jovem foi fiel ao chamamento de Deus e foi por Ele muito usada para levar o evangelho àquela nação pagã. Numa noite ela estava pregando o evangelho na denominação em que a mãe de Watchman Nee se reunia. Embora Watchman Nee nascesse em um lar dito cristão, ninguém na sua casa era salvo. Sua mãe, de gênio dominante e forte, freqüentava as reuniões, mas não era salva. Depois da rica  pregação de Dora Yu, a mãe foi salva e ao voltar para casa toda  a família percebeu a mudança, pois ela pediu perdão a todos confessando suas ofensas. Watchman Nee ficou impressionado com o que acontecera a sua mãe, e ficou sabendo que ela  fora salva mediante a pregação de Dora Yu. Na noite seguinte ele foi ouvir a pregação, e diante do testemunho de tantas pessoas sendo tomadas pelo Espírito Santo, também foi salvo, recebendo ali mesmo o chamamento do Senhor para servi-Lo.

A partir daí o jovem Nee empenhou-se a buscar intensamente o Senhor. Ele passou a ler muitos livros cristãos sobre as verdades da Bíblia. Por te realmente aplicado seu coração em buscar o Senhor, Watchman Nee pôde ser tão usado por Ele. A experiência desse jovem que amava o Senhor nos encoraja. Conta-nos sua história que no seu quarto havia apenas um pequeno espaço livre para ele dormir, cercado de livros por todos os lados. Sua natureza e seu caráter eram decididos. Mas muito foi produzido nele lentamente pelo trabalhar constante do Senhor. Assim devemos ser nós. Especialmente os jovens devem ter uma natureza e um caráter firmes para serem úteis nas mãos do Senhor.

Watchman Nee estudava com afinco buscando aprofundar-se no conhecimento de Deus. Aprendeu muito com as verdades restauradas pelos Irmãos Unidos, e enfrentou batalhas desde o momento da sua salvação. A primeira batalha foi a respeito da certeza da salvação. Naquele tempo na China, raros eram os que afirmavam ser salvos, pois isso significava orgulho. Nee, então, teve que procurar muito na Bíblia e em diversos livros até ter confirmada a sua salvação. Se para nós hoje isso não significa um problema tão grande, graças às verdades já restauradas, naquela época era diferente.

A segunda batalha do jovem Nee foi travada na escola. Ele começou a orar pela salvação dos seus colegas de classe. E pouco a pouco, portas foram abertas para que ele pregasse o evangelho e, com  exceção de um, todos de sua classe foram salvos. A escola foi revolucionada com tantos jovens lendo a Bíblia e orando e buscando o Senhor. Por esse testemunho houve uma grande salvação naquele lugar. Que grande incentivo para nós hoje! Podemos mudar a situação do nosso colégio ou universidade. Não podemos acomodar-nos enquanto o tempo passa e nenhum dos nossos colegas é salvo. Comecemos orando. Levemos diante do Senhor o nome de cada um; dia após dia façamos tais nomes lembrados ao Senhor, e chegará a hora em que Deus nos abrirá as portas e muitos serão salvos. Watchman Nee tinha uma relação dos nomes dos companheiros, e ele orava nominalmente em favor de cada um. O Senhor honrou aquelas orações incessantes.

Muitos foram salvos naquela escola e Watcman Nee precisava supri-los com vida, com a Palavra. Por isso sempre orava pedindo ao Senhor que lhe desse algo para ajudar a vida espiritual daqueles jovens. Como o número deles era grande, alguns pastores e líderes de denominações foram convida-los para se reunirem em “suas igrejas”. Que fazer? Para onde ir? Nee e alguns colegas foram à Bíblia para saber o que fazer. Leram, oraram, procuraram e descobriram que na Bíblia só há uma igreja. Alguns dizem: “Isto não é novidade; todos sabem que a igreja é uma só e que o povo de Deus também é um” .  Porém o que aqueles jovens descobriram ao se aprofundarem em sua busca é que a unidade do Corpo de Cristo, da igreja pode ser praticada. Não é uma unidade abstrata, teórica apenas, sem uma forma e uma prática concretas. Não é algo para o futuro, mas é uma realidade atual. De que maneira? Como praticar? Observando e respeitando o limite da localidade, da cidade. A base da igreja é a base da localidade. Aleluia! Isso era totalmente novo naquela época! Era uma verdade que estava sendo restaurada por intermédio de Watchman Nee. Em cada cidade há uma só igreja. A igreja não pode ser maior do que a cidade, como as igrejas estatais, nem pode ser menor do que a cidade, como as igrejas de bairros.

Podemos pensar: “Mas as outras verdades restauradas eram tão grandiosas, tão espirituais, e que temos aqui: terreno, cidade, base, limite?”  Isso não parece tão elevado, mas é justamente o ponto crucial e fundamental; é o lugar que o Senhor escolheu para ali pôr o Seu nome. É preciso ter um terreno para se edificar a casa de Deus. A casa de Deus de forma visível não pode ser edificada nem expressada no ar, sobre teorias. A sua base prática não são as muitas verdades espirituais. O povo de Israel perdeu Jerusalém. Foram espalhados pela Babilônia, Egito, Síria, Assíria e outros lugares. Por que eles não edificaram o templo em outro lugar, se tinham condições e qualificações para isso? Simplesmente porque qualquer outro lugar não era o terreno escolhido por Deus; não era Jerusalém. Uma coisa é o fundamento, outra coisa é o terreno. Imagine que contratamos o serviço de uma construtora. Eles nos perguntam pelo terreno onde devem lançar as estacas para o fundamento da construção; nós, porém, dizemos que não há terreno.  No mínimo, somos considerados loucos.

 

                                                       A GENUÍNA EDIFICAÇÃO

Temos ouvido muitos falarem: “A igreja é uma. Vamos edificar a igreja.”  “Vamos. Onde é o terreno, por favor?” Durante todos esses séculos ninguém se importou com o terreno, com a base. Sem o terreno não se edifica nada. Graças a Deus porque Ele restaurou a visão sobre o terreno. O povo de Israel não podia edificar o templo na Babilônia, porque Deus escolhera Jerusalém como terreno para edificar Sua casa. O povo precisou voltar a Jerusalém para ali lançar os alicerces do templo. Não depende da escolha ou preferência humanas: “Por que uma cidade, uma igreja? Não é prático. Prefiro uma igreja por classe social. Ou então uma igreja de profissionais liberais --- o relacionamento é muito mais fácil, pois, os interesses são comuns... ou quem sabe a igreja das donas de casa, ou a igreja dos coreanos, uma igreja por nação... Mas uma igreja para cada cidade? Quem inventou isso?” Deus. Deus escolheu, Deus preferiu, não há lugar para nenhuma outra preferência humana. Conforme a Sua sabedoria, Deus quer uma única igreja em cada cidade, e somente assim a igreja pode ser edificada. Se assim não fosse, quando eu e qualquer irmão tivéssemos dificuldades de convivência, eu simplesmente sairia daqui e iria reunir-me em outro lugar. Nesse segundo lugar se alguém me incomodasse me mudaria para um terceiro, e assim por diante. Divisão após divisão. E quem consegue não causar problemas e não receber problemas? Quem consegue ter harmonia em todo lugar?

Estar na igreja independe se nos damos bem ou não com determinados irmãos. Estamos na igreja porque este é o lugar que o Senhor escolheu. Se dois irmãos estão brigados e moram na mesma cidade, eles não têm escolha, não podem ir para outro lugar porque pertencem à mesma igreja. Isso é sabedoria de Deus. Ainda que um dos irmãos se mude para outra cidade, isso não resolveria a questão, porque com certeza haverá ali outro irmão, quem sabe pior do que aquele. Parece que na vida da igreja há mil problemas, e quem não quer ter problemas não viva a vida da igreja. Acontece, porém, que é assim que crescemos, que somos amadurecidos por Deus e edificados. Não há para onde fugir.

A convivência humana é muito difícil. Se há cem pessoas, há cem opiniões diferentes. O ser humano é complicado e difícil, mas Deus regenerou um grupo de pessoas. Somos seres humanos iguais aos outros, contudo... diferentes. Por quê? Porque temos a vida de Deus dentro de nós. E a vida divina é o ponto de partida para Ele trabalhar em nós. Por isso, enquanto vivemos juntos, com problemas ou sem problemas, buscamos o Senhor, a Sua vida cresce em nós e nos edifica coletivamente. Por isso em Efésios 3:10 Paulo diz: “Para que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida agora dos principados e potestades nos lugares celestiais.”  O diabo e seus anjos caídos olham para nós e vêem um grupo de pessoas tão esquisitas, teimosas, complicadas e se admiram que estejamos sendo edificados. Mas é somente graças à vida de Deus em nós, na base correta da unidade, que podemos ser edificados casa  espiritual para Ele. Precisamos estar no lugar que o Senhor escolheu para que Ele possa trabalhar em nós e, assim, ter uma expressão, um testemunho da unidade nessa terra. O que Satanás tem feito nesses quase vinte séculos é dividir, dividir e dividir, a fim de que o testemunho da unidade do Corpo de Cristo não se manifeste. Todavia, hoje podemos dizer: Basta! Porque fomos chamados para restaurar a unidade, por meio da visão do terreno da unidade da igreja de Deus. Cada igreja deve ser edificada numa cidade, e uma igreja numa cidade não é separada das demais (a única separação é a geográfica), mas todas compõem a igreja de Deus, universalmente falando. Por isso, as igrejas assim estabelecidas não se sentem diferentes nem divididas, ainda que administrativamente haja diferenças. Deus quer a unidade de Seu povo; e somente em “Jerusalém”  tal unidade pode acontecer. Herdamos tão maravilhosa visão, agora devemos e podemos praticá-la!

 

                                   Fonte: A Restauração da Casa de Deus ontem e hoje